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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Tempus Fugit – Carpe Diem

Tenho nas minhas mãos um relógio de sol. Você deve achar estranha essa declaração porque relógios de sol são, normalmente, objetos grandes e pesados, feitos ou de pedra ou ferro. Mas o meu relógio é diferente. Ele é do tamanho de um daqueles antigos relógios de bolso, com dois milímetros de espessura. Prodígio da tecnologia moderna? Não. Prodígio da tecnologia medieval. Comprei-o há muitos anos numa lojinha da cidade de Carcassone, no Sul da França. Dizem que Carcassone, dentre todas as cidades medievais que restaram, é a mais bem preservada. Um turista que viaje por aquela região não pode perdê-la.
Carcassone era ponto de descanso para os peregrinos que iam para Santiago de Compostela ou para pagar promessas ou à procura de milagres. Aqueles minúsculos relógios de sol, eles os levavam como colares à volta do pescoço para se orientarem sobre as horas do dia.
Gravado no metal dos relógios havia uma sóbria advertência: “Tempus Fugit”, o tempo está fugindo.
Mas por toda a cidade, nas inúmeras lojinhas freqüentadas pelos turistas, ao lado dos relógios de sol, vendiam-se também placas de louça, metal, madeira com a inscrição: “Carpe Diem”, colha o dia. Porque o tempo foge, urge gozar o dia.
A presença dessas duas frases latinas deixou-me intrigado. E isso porque, muitos anos antes de visitar Carcassone eu havia escolhido precisamente essas duas frases como resumo da minha filosofia de vida.
Coincidência? Eu poderia ter escolhido outras frases. E não havia nenhuma razão lógica para que elas se encontrassem em todos os lugares daquela cidade.
Veio-me então a suspeita inevitável: será que em algum século passado eu vivi aqui e que essas frases ficaram gravadas na minha alma até que um acidente qualquer as fizesse emergir até a minha consciência? Qualquer pessoa que visitar meu escritório verá que, nas duas portas, essas frases estão gravadas.
Sou uma ampulheta. A areia fina não pára de escoar de cima para baixo. É impossível não imaginar o momento quando o último grão de areia vai cair. A meu ver estas duas frases resumem a essência da sabedoria.
Ser sábio é viver bem. “Sapio”, em latim, quer dizer “eu degusto”. O sábio é alguém que sabe degustar a vida. E embora pareça estranho o que vou dizer, é a consciência da fluidez do tempo, a areia que escoa sem cessar, que nos desperta para o gozo de cada momento da vida. A consciência da morte põe tempero na vida. Todos os gostos, todos os cheiros, todas as cores, todos os sons ficam mais intensos exatamente porque tomamos consciência de fluxo da areia.
Nietzsche passou por um longo período de doença, tempo em que a areia escorre com mais velocidade. Vejam o que ele escreveu a respeito disso: “É assim que aquele longo período de doença aparece a mim, agora: é como se eu tivesse descoberto a vida de novo, incluindo eu mesmo; eu provei todas as coisas boas, mesmos as pequenas, de uma forma como os outros não as provam com facilidade. Somente a minha doença me levou à razão."
Fernando Pessoa teve a mesma experiência. No seu poema “Tabacaria” ele afirma: “Tenho a lucidez de quem está para morrer.”A consciência da morte torna a vida delicada. Ela é como a asa de uma libélula e nos faz prestar atenção no “momento”, que é a única coisa que realmente possuímos.
O bruxo Dom Juan advertia seu erudito discípulo, o antropólogo Carlos Castañeda: “A morte é a única conselheira sábia que temos. Sempre que você sentir, como sempre acontece, que tudo está errado e que você está ao ponto de ser aniquilado, volte-se para a sua morte e pergunte-lhe se assim é. Sua morte lhe dirá que você está errado. E uma imensa quantidade de mesquinhez desaparece se a sua morte lhe faz um gesto, ou se você a vislumbra, ou se você simplesmente tem o sentimento de que a sua companheira está ali, olhando para você.” A consciência da morte nos torna doces e mansos.“Que caminho então devemos tomar?”, o discípulo lhe pergunta. “Não importa”, responde o bruxo. Todos os caminhos conduzem ao mesmo fim. Escolhe, portanto, o caminho do amor...”
Consulto o meu relógio de sol comparando-o com os ponteiros do meu moderníssimo digitalizado. O relógio de sol confirma: o digitalizado está marcando a hora certa. Está na hora do “Carpe Diem...”
( Rubem Alves, Jornal Correio Popular on-line 17/02/2008)