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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Teses sobre Feuerbach

1. Ad Feuerbach*

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A falha capital de todo materialismo até agora (incluso o de Feuerbach) é captar o objeto, a efetividade, a sensibilidade apenas sob a forma de objeto ou de intuição, e não como atividade humana sensível, praxis; só de um ponto de vista subjetivo. Daí, em oposição ao materialismo, o lado ativo ser desenvolvido, de um modo abstrato, pelo idealismo, que naturalmente não conhece a atividade efetiva e sensível como tal. Feuerbach quer objetos sensíveis efetivamente diferenciados dos objetos de pensamento, mas não capta a própria atividade humana como atividade objetiva. Por isso considera, na Essência do Cristianismo, apenas como autenticamente humano o comportamento teórico, enquanto a praxis só é captada e fixada em sua forma fenomênica, judia e suja. Não compreende por isso o significado da atividade "revolucionária", "prático-crítica".

2

A questão se cabe ao pensamento humano uma verdade objetiva não é teórica mas prática. É na praxis que o homem deve demonstrar a verdade, a saber, a efetividade e o poder, a citerioridade de seu pensamento. A disputa sobre a efetividade ou não-efetividade do pensamento-isolado da praxis é uma questão puramente escolástica.

3

A doutrina materialista sobre a mudança das contigências e da educação se esquece de que tais contingências são mudadas pelos homens e que o próprio educador deve ser educado. Deve por isso separar a sociedade em duas partes uma das quais é colocada acima da outra.
A coincidência da alteração das contigências com a atividade humana e a mudança de si próprio só pode ser captada e entendida racionalmente como praxis revolucionária.


4

Feuerbach parte do fato da auto-alienação religiosa, da duplicação do mundo em religioso e terreno. Seu trabalho consiste em resolver o mundo religioso em seu fundamento terreno. Mas que este fundamento se desloque de si mesmo e se fixe nas nuvens como um reino autônomo, isto só se ilumina a partir do autodilaceramento e da autocontradição do próprio fundamento terreno. Este deve ser pois entendido em si mesmo, em sua contradição, como praticamente revolucionado. Porquanto, depois de, por exemplo, descobrir na família terrestre o segredo da família sagrada, cabe aniquilar a primeira teórica e praticamente.

5

Feuerbach, descontente com o pensamento abstrato, recorre à intuição; mas não capta a sensibilidade como atividade prática, humana e sensível.

6

Feuerbach resolve o mundo religioso na essência humana. Mas a essência humana não é abstrato residindo no indivíduo único. Em sua efetividade é o conjunto das relações sociais.
Feuerbach, que não entra na crítica dessa essência efetiva, é por isso forçado:
1) A abstrair o curso histórico e fixar o ânimo religioso como para-si, pressupondo um indivíduo humano, abstrato e isolado.
2) Por isso a essência só pode ser captada como "gênero", generalidade interna, muda, que liga muitos indivíduos de modo natural.

7

Feuerbach não vê, pois, que o próprio "ânimo religioso" é um produto social e que o indivíduo abstrato, analisado por ele, pertence a uma forma social determinada.

8

Toda vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios, que induzem às doutrinas do misticismo, encontram sua solução racional na praxis humana e no compreender dessa praxis.

9

O extremo a que chega o materialismo intuitivo, a saber, o materialismo que não compreende a sensibilidade como uma atividade prática, é a intuição dos indivíduos únicos e a sociedade civil.

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O ponto de vista do materialismo antigo é a sociedade civil, o do materialismo moderno, a sociedade humana ou a humanidade social.

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Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo diferentemente, cabe transformá-lo.

* MARX, Karl. Teses contra Feuerbach. In: MARX, Karl. Manuscritos econômico-Filosóficos e Outros Textos Escolhidos. (Coleção Pensadores, nº XXXV). Tradução: José Arthur Giannotti. São Paulo: Abril, 1974, pp 57-59.