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segunda-feira, 11 de junho de 2012

Monólogo de um Filosofrênico


 Postado por DIEGO A. MONSALVO no REPENSANDO FILOSOFIAS em 6/07/2012


Bem, eu sou mais um ex-usuário... Mais um filosofrênico...
Tudo começou quando um amigo me apresentou a Ilíada, aí foi uma Odisséia, sem me dar conta de onde eu me metia, fiz do mundo uma divisão entre gregos e troianos e comecei a consumir muito HOMERO.
O mundo passou a girar dentro da minha cabeça e só então percebi que já fora dominado por esta Teogonia abissal de Trabalhos e Dias, num consumo desenfreado de HESÍODO...
Num determinado momento, até achei que havia encontrado, seguindo os passos de PARMÊNIDES, o caminho da verdade do ser... Mas, de repente, já estava envolvido com HERÁCLITO e aí, vocês já sabem... A coisa pesou... e o meu (e o seu) quebra-cabeça chamado mundo ruiu de tal forma que eu sentia que podia ser e não-ser ao mesmo tempo... Pode?! É claro que o logos poria tudo no lugar, mas já era... ‘tava’ perdido mesmo. Tudo bem que como diz Clarice Lispector, ‘perder-se também é caminho’, mas a coisa foi ficando sinistra. Nada é tão fácil assim...
Todo dia passava a usar algo mais pesado, disse a mim mesmo, já foi, agora só consumia PLATÃO, e mesmo que SÓCRATES aparecesse na minha frente dizendo ‘prá’ que eu recusasse essa realidade e aceitasse que eu estava numa Caverna, diria não! Não! Que negócio é esse? E quando tapei os ouvidos só conseguia ouvir a voz daquilo que, até então eu chamava de consciência, me dizendo usa ARISTÓTELES seu fracote, senão vai enlouquecer blá, blá, blá... e olha que não sou esquizofrênico heim!
Mas... usei... e usei muito; só parei quando me apresentaram um cara chamado AGOSTINHO DE HIPONA, e que suas próprias Confissões iriam me ajudar... que nada... No começo tudo bem, bacana, mas depois me vi atraído por um outro usuário barra-pesada de Aristóteles, o TOMÁS DE AQUINO... Caramba bicho, quase enlouqueço na lucidez de tanto consumir... Achava até que ele era o cara... Mas vício é vício! Fiz da minha vida umaSuma do que ela era e só cheguei num rascunho daquilo que era meu Ente frente à minha Essência... ‘Tava’ ‘perdidão’ em pleno meio-dia da razão.
Minha família optou por um Discurso do Método para que eu saísse do que eles chamavam vício contumaz de ilusão... Tentaram me desintoxicar com DESCARTES. Chamavam-me de Príncipe e diziam que, de vez em quando, eu até poderia tomar um MAQUIAVEL; mas, como todo viciado nega a dependência, de raiva consumi ESPINOSA como um louco, e mesmo todo afetado por essa natureza que nos dispõe a vontade de ser, eu sabia que ‘tava’ mal... Nem KANT e uma Crítica da Razão Pura dariam jeito.
Reneguei minha família, que a essa altura tinha tentado um choque de realidade com uso contínuo de Positivismo e doses homeopáticas de HEGEL. Ah! Não brinquem com um viciado!! Foi aí que parti ‘pro’ meu consumo maislongo. Decidi, só usaria MARX então... Que me dessem liberdade, pombas! Afinal, nós usuários somos uma sub-classe com identidade provisória de uma verdadeira classe!
Resultado, tive que sair de casa, e na fossa do meu amadurecimento, deslumbrei-me com a minha própria Vontade de Poder e aí, ah! Aí usei NIETZSCHE até dizer chega. Senti-me um Super-Homem... Mas tomei um choque quando misturei com SCHOPENHAUER, senti que minha representação não passava de uma vontade ilusória que sequer eu tinha escolhido... 'Tava' um traste...
Vi-me como uma paixão inútil e comecei a mexer com SARTRECAMUS e umas coisas existencialistas. Até que tomei um rumo a partir daquilo querepresentava minha responsabilidade única pelo mundo e pelos outros, que mesmo que me causassem um inferno, eram a consciência de tudo que se apresentava pra mim, era meu mundo, pô...
Acho que só quem passou por um vício desses sabe o abismo que se abre na realidade...
Hoje, ‘tô’ limpo, vivo um dia depois do outro, como dizem meus verdadeiros amigos... Meu terapeuta me diz que venho fazendo verdadeiros avanços com a ajuda dos remédios prescritos.
Essa semana consumi um capítulo da novela das 8 e ousei tomar como leitura a coluna de fofoca de um jornal...
De vez em quando, diz meu terapeuta, eu posso ter uma recaída, mas ele e meus amigos estarão lá para me Vigiar e Punir caso queira usar FOUCAULT. Disse muito obrigado, mas mesmo que me venham com ADORNO acho que não aceitaria mais nada...
Minha meta é o controle da minha FILOSOFRENIA, custe o que custar.
E semana que vem começo em mais um conjunto de ex-dependentes, e pretendo, se tudo der certo, conseguir, com ajuda de muitas doses de ‘reality shows’, chegar à minha média de normalidade, a tão sonhada MEDIOCRIDADE!
Esse é meu relato, mais um dia, mais um filosofrênico.


Obrigado.


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