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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sopro do Espírito

Wilson Horvath

O Olho da Providência, com grande imponência, estava pintado no espelho do banheiro do Convento Santo Anselmo. De um triângulo, do qual saiam feixes dourados de luz, estava inserido o olho, desenhado com tamanha técnica e precisão que o permitia retribuir os olhares e acompanhar todos os movimentos de quem permanecia naquele recinto. Abaixo da gravura havia uma máxima latina: “Cave, cave! Deus omnia videt.”, cuja tradução é: Cuidado, cuidado! Deus tudo vê.
Eu nunca gostei daquela pintura, não por ela, e sim por estar ali. Talvez seja essa a causa de minha prisão de ventre! Mas diferente dos outros dias, com certa raiva e lamentação a fitei de frente a pintura. Os últimos acontecimentos infernizaram a vida em todo o Globo, em especial na Europa. E abalaram de forma significativa a minha vocação religiosa.
Eu já havia conversado duas vezes com meu superior, Padre Calisto, sobre minha pretensão de abandonar o seminário. Mas ele, com sua bondade e seu jeito simples de ser, conseguiu me convencer a continuar, alegando que minha crise vocacional era passageira e se dava devido aos terrores provocados pela guerra. E sugeriu mais orações tanto em prol de minha vida sacerdotal como e principalmente pela paz.
Hoje, no entanto, falarei novamente com ele, desta vez não o deixarei me persuadir. Não irei para a faculdade; depois da Oração das Laudes, subirei ao seu quarto e apresentarei minha carta de renúncia. Afinal para que estudar Teologia se minha fé não condiz com a verdade? Não mesmo!
Epicuro de Samos, quatro séculos antes de Cristo, já mostrara sua incoerência logica. O Deus que cremos e pregamos não o é, pois Ele não pode ser ao mesmo tempo: Bom, Poderoso e Conhecedor de tudo. E uma vez negada uma dessas qualidades, anula-se todo o seu Ser, logo o nosso deus não é Deus.
O mundo está infestado pelo mal. Pessoas boas sofrem; enquanto outras ruins são bem sucedidas, mesmo fazendo todos os tipos de crueldades (violência, humilhação, exploração, escravidão, assassinato) àqueles que seguem uma vida virtuosa e santa. Além de acidentes naturais, doenças e pragas que devastam populações inteiras.
De onde vem o mal? E por que Deus não põe um fim nele? Se Deus tem conhecimento do mal e pode extirpá-lo, mas não o faz porque não quer, Ele não é bom. E isso é contrário à natureza divina.
Ou Ele quer fazê-lo e conhece os sofrimentos e as causas do mal, mas não age, pois não tem este poder, Ele não é totalmente poderoso. Isso também contraria a sua natureza.
E se quer e pode, porém não faz, pois não tem pleno conhecimento de todas as desgraças e sofrimentos. Então Ele não está em todos os lugares nem é onisciente. O que nega duplamente o Ser de Deus.
Os sinos anunciaram o início do Ofício Divino, alguns seminaristas, que também faziam sua higiene matinal, dirigiram apressadamente à capela... Esperei os demais saírem e me postei ajoelhado em frente do Olho de Deus. E nesta posição permaneci até ouvir o coro cantar o Benedictus.
Essa oração matinal me é utópica, ela me ajuda a enxergar mais longe e a traçar infinitamente os meus passos. Nossa missão é libertar os oprimidos, aqueles que jazem nas trevas e nas sombras, das mãos de seus inimigos e dirigir-nos para um caminho da paz...
– Ó Deus! Mostre-me que meus pensamentos presentes são falsos. Ajude-me a trilhar os caminhos da santidade e a ser instrumento de sua vontade na luta contra todos aqueles que praticam o mal. Que meus braços sejam vossos na construção da paz, da fraternidade e do amor...
Levanto, vou para o meu quarto e começo a arrumar minha mala. Não demorou muito, havia apenas algumas peças de roupa, livros e pertences de higiene pessoal. Estava decido! Sairei do seminário e participarei da resistência contra os nazistas. Não poderia mais ficar ali parado, vendo passivamente o mal triunfar.
Com a mala nas mãos, dirigi-me ao escritório de Padre Calisto, ao entrar o encontro de cabeça baixa, preenchendo uns papéis. Tento anunciar minha presença, mas minha voz não respondeu, saindo apenas um: “Pêeee...”
Ele levantou a cabeça, olhou em minha direção, voltou a escrever e disse:
– Olá Eugênio, tudo bem? Por que não foi à aula?
– Tudo! Eu gostaria de...
– Eugênio, precisarei de um favor seu. Você pode atravessar a fronteira e levar a Irmã Margarida ao Convento de Santa Maria Madalena?
Eu estava tão nervoso que nem havia percebido a presença da religiosa sentada no sofá ao lado da porta de entrada. Devido ao seu hábito, ela era uma freira de clausura, estranhei o fato de ela estar fora do mosteiro. Mas vivíamos temos difíceis e aquela deveria ser uma falha insignificante.
– Padre Calisto, gostaria de conversar antes com o senhor.
– Não temos tempo, Eugênio. Conversaremos depois. Eu mesmo a levaria, mas preciso estar aqui, pois os militares chegarão aqui em breve. Também seria bom que você não fosse só com a freira, mas precisamos agir logo. O tempo é nosso inimigo! Pegue a chave e o documento do carro, mais as chaves da Capela de Santo Agostinho, vocês passarão a noite lá.
Padre Calisto levantou entregou um pouco de dinheiro, os documentos que ele preenchia e nos encaminhou para fora.
– Eugênio, leve a carta de transferência da Irmã Margarida, assinada pelo Senhor Bispo, a entregue à madre superiora do convento ou a apresente caso seja necessário. E que Deus vos acompanhe. Vão, vão...!
Padre Calisto estava transtornado e o mesmo sentimento era compartilhado pela Irmã Margarida. Ele nos acompanhou até o carro, abriu a portão e acenou desesperadamente para sairmos.
A viagem foi muito cansativa. Há muito tempo que não passava por aqueles lugares. Estava terrível devido à invasão nazista. Prédios destruídos, ruas cheias de destroços, corvos sobrevoando. Encontramos vários pedintes entre eles, crianças desnutridas, maltrapilhas, assustadas. Irmã Margarida entregou para as primeiras crianças os mantimentos que trazia consigo, mas esses foram insuficientes para atender a todos os que mendigavam pelo caminho.
A freira chorou quase toda a viagem. Em poucas vezes, ela atendeu o meu pedido e rezamos o terço, mas ela errava constantemente, inclusive na Ave Maria. Talvez isso se desse em razão de ela não estar habituada a ver tanta desgraça... Por fim, somente eu rezava e ela me acompanhava em voz baixa, mas com grande atenção, conforme as crianças em preparação para a Primeira Eucaristia: Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum, benedicta tu in mulieribus...
Nós fomos parados por uma barreira do exército nazista. Soldados obrigaram-nos a descer, revistaram o carro e começaram um longo interrogatório. Irmã Margarida ficou pálida e permaneceu calada. Eu entreguei documentos do carro, os meus e a carta do bispo a um dos soldados. Ele os conferia com desconfiança, esperando encontrar algum erro para justificar a violência guardada em seu coração petrificado.
O soldado encostou a baioneta em minha cintura e ordenou que eu levantasse a batina e abaixasse as calças para ver se eu era circuncisado, ou seja, judeu. Nisso, ouço uma voz chamando-me. Virei e vi um jovem sargento sorrindo se aproximar de nós.
– Eugênio, Eugênio. Você já é padre? Lembra-se de mim? Nós éramos colegas no primário. Regressávamos juntos da escola, antes de você entrar para o seminário.
E dirigindo aos soldados, ordenou:
– Deixem! Eu cuido disso. O conheço assim como toda a sua família.
O soldado fez a saudação nazista, entregou nossos documentos, despediu de nós e, juntamente com outro soldado, voltou para a estrada a fim de continuar a patrulha.
Não me lembrava dele, mas naquele momento senti aliviado por tê-lo encontrado. No entanto, meu pai foi condenado por se opor ao regime nazista. Se ele conhecia a minha família, poderia saber desse fato também. Entretanto, se ele estava nos ajudando ou ele não sabia disso ou não concordava plenamente com as políticas hitlerianas. Muitos soldados não aceitavam e clandestinamente tramavam contra o ditador alemão.
O sargento examinou rapidamente nossos documentos, nos entregou e perguntou para aonde íamos.
– Para o Convento de Santa Madalena. – Respondi.
– Então é melhor vocês irem, pois está começando a entardecer. E o convento não está perto. É muito perigoso! Vocês podem ser confundidos e serem alvos de disparos tanto por nós como pelos porcos da resistência.
E voltando para a freira disse:
– Reze por nós irmã. Reze para que acabe logo esta guerra para que possamos viver em paz.
Irmã Margarida, que não havia dito uma palavra até então, fixou bem os olhos no sargento e respondeu firmemente, usando dois versículos do Salmo Nove.
– “Os ímpios serão lançados no inferno, e todas as nações que se esquecem de Deus. Porque o necessitado não será esquecido para sempre, nem a expectação dos pobres perecerá perpetuamente”.
O sargento mudou o seu semblante, de um rosto alegre para raivoso, e indicou para entrarmos no caro. Antes de eu entrar, ele chamou-me e fez a saudação nazista e ficou esperando que eu também fizesse. Como não respondi. Ele indagou:
– Eugênio, não ouvi sua saudação ao Führer.
Respondi a saudação. O sargento voltou a sorrir e acenou para irmos. Entrei no carro, ele fechou a porta, se despediu. E continuamos nosso trajeto.
Após distanciarmos um pouco da barreira policial, Irmã Margarida disparou a chorar. Um choro diferente de até então. Agora não mais por medo ou tristeza, e sim raivoso, indignado. E lançou uma série de maldições contra os nazistas.
– Calma irmã. Nessas horas que devemos exercer a virtude do perdão.
– Calma! Calma? Perdão! Seu porco nazista! Você é um deles...
Ela desferiu uma série de socos e tapas em mim e depois se desabou em prantos. E eu aprendi uma lição: diante do sofrimento, se não pudermos fazer nada para amenizar a dor o que tem de melhor a fazermos é calar. E apenas permanecer ao lado do sofredor, chorando junto ou sendo um ombro de consolo, ajudando a enxugar as lágrimas.
Depois daquele momento de desespero, permanecemos o restante da viagem em silêncio, esse, algumas vezes, interrompido por um soluço ou pequeno choro da religiosa.
Chegamos à capela no início da noite e fomos para a casa paroquial, um local pequeno e aconchegante. Tudo estava organizado, mas aparentava que não recebia ninguém há muito tempo. Na sala havia um quadro de Pentecostes, em que Maria e os apóstolos receberam o Espírito de Santo de Deus, dando início a Igreja.
Coloquei as malas na sala, falei para Irmã Margarida ficar com o quarto principal, ela pegou a sua mala e foi se dirigindo para ele. Então a chamei.
– Irmã, por favor, desculpe-me pelo incidente no carro. Gostaria também de dizer que não sou nazista, ao contrário, os abomino. Nos últimos dias, venho pensando em abandonar a vida religiosa e me ingressar...
Ela parou em frente do quadro, as labaredas de fogo pareciam cair diretamente nela, tal como se essa fosse a vontade inicial do artista ou se ela estivesse realmente presente no Cenáculo. Ela soltou a mala, correu em minha direção, abraçou-me e chorando disse:
– Eu que devo desculpas. Você nada me fez... Despejei em você todas as minhas aflições e desgraças. Desculpa-me! Desculpa-me! Obrigado, obrigado...
Ela deu alguns beijos em meu rosto. A única mulher que me havia beijado até então foi a minha mãe. Senti desconforto com aquela cena, nessas quase duas décadas de seminário, ao menos a metade do tempo, passamos refletindo o como evitaremos qualquer contato com uma mulher, visando impedir algo pior acontecesse. Então a afastei de seus braços, mas não sem uma certa hesitação.
– Não há nada para te desculpar. Todos nós estamos comovidos com as mazelas provocadas pela loucura nazista. E desejamos o seu fim.
– Espero que meus olhos consigam ter a graça de ver a queda desse regime demoníaco.
– Oxalá, irmã! Oxalá!
– Preciso tomar um banho, estou exausta.
– Vá, no seu quarto tem banheiro. Depois, veremos se há alguma coisa para comer, não sei se estou mais cansado ou mais faminto.
Ela sorriu e foi para o quarto. Também fui para o meu. Coloquei água na banheira e entrei. Fiquei pensando na viagem, em tantas desgraças encontradas pelo caminho, naqueles soldados malditos! E principalmente em Margarida... Amanhã ela estará de volta à paz do convento. E, em comunhão plena com o Pai, rezará pelo fim desses tormentos. Hoje, no entanto, preciso ser-lhe um refúgio de paz e segurança.
Fiquei muito tempo na banheira, água estava bem quente fazendo espalhar vapor de água por todo o quarto. Aquele banho foi revigorante, e foi um verdadeiro batismo, parecia que eu tinha nascido novamente. Visto a minha roupa, mas não coloco a batina, estava muito quente e, em breve dormiríamos mesmo. Abro a janela do quarto e sinto tocar o meu rosto uma gostosa brisa, que pairava sobre a cidade...
Da cozinha vinha um delicioso cheiro de macarrão. Coberto de fome, sigo o cheiro e ao chegar no refeitório, levo grande susto.
Deparo com uma linda mulher cozinhando. Ela usava um vestido curto vermelho, fechado pouco acima dos seios, esses bem desenhados; seu traje revelava uma cintura fina, quadril largo, pernas firmes; os cabelos molhados eram muito pretos, chegavam a brilhar; rosto delicado e de tamanho médio; olhos flamejantes, que lembravam duas jabuticabas; nariz fino e levemente levantado; lábios médios, cobertos por um forte batom vermelho.
– Olá Eugênio, encontrei algumas coisas aqui e estou preparando o jantar. Abri também este vinho, espero que não se importe.
Permaneci imóvel e passado. Ela acendeu um cigarro, deu uma bela tragada, soltou a fumaça, encheu uma taça de vinho, que pelo cheiro adocicado era canônico, no entanto continua ser o elixir de Baco, e a entregou para mim.
– Margarida!? Irmã Margarida...?
– Desculpe Eugênio não ter dito antes. Não sou freira nem me chamo Margarida.
– Nan, não!?
– Meu nome é Raquel.
– Raquel...
– Sim! E eu sou judia.
– Raquel e judia!?
– Isso mesmo. Os malditos nazistas mataram toda a minha família, não sei como, mas consegui escapar. A resistência, com a ajuda de Padre Calisto, elaborou esse plano de fuga.
– Padre Calisto sabia?
– Sim, ele faz parte da resistência. E me escondeu por algumas semanas no seminário. No entanto, a resistência ficou sabendo que os nazistas desconfiaram de minha presença lá e tramavam uma busca e apreensão. Então, ele deu aquela roupa de freira, explicou o que deveria fazer e me mandou para cá.
Tomei outro trago de vinho e sorri com aquela situação, obviamente não por causa do sofrimento de Margarida, melhor de Raquel, e sim devido à atuação de Padre Calisto.
– Entre o imperativo categórico kantiano e a crítica ao seu formalismo ético proposta por Benjamin Constant, Padre Calisto sempre se posicionou em favor do segundo.
– Hum! Por quê? Kant era favorável aos nazistas e Constant contra?
– Não! De maneira nenhuma...
Raquel terminou de preparar a mesa, pôs um pequeno vaso de flores vermelhas do campo e ao seu lado um candelabro com três velas. Voltou ao fogão e entregou-me o macarrão e pediu para colocá-lo à mesa. E trouxe consigo a garrafa de vinho.
Ela sentou e eu permaneci em pé, parado com as mãos sobre a cadeira. Estava condicionado a rezar antes das refeições. Não sabia se deveria invocar uma oração naquele momento. No entanto, não conhecia as orações que os judeus rezam antes de comer.
Olhei para Raquel de relance e ela me encarava com aqueles lindos olhos vibrantes, eu não tive coragem de retribuir o seu olhar e abaixe a cabeça.
– Não vai comer? Você disse que estava com fome. Vamos, sente-se, por favor. Se não a comida esfriará.
Durante o jantar, Raquel falou algumas coisas, e eu apenas respondia com um “sim” ou “não”. No seminário, não falávamos durante as refeições, enquanto os estudantes alimentavam, eram lidos trechos bíblicos ou biografias de algum santo. No entanto o meu silêncio era decorrente do embaraço provocado por aquela situação. Pela primeira vez em minha vida estava a sós com uma mulher.
O meu silêncio foi interrompido no momento em que ela me pediu para falar um pouco mais de Kant e Constant. Tomei um bom trago de vinho, incorporei o espírito catedrático e comecei a explanar.
– Kant propõe o seguinte imperativo: “Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal”. Assim, as pessoas deveriam pautar suas ações tendo em vista o fato de que se toda a humanidade agisse daquela forma o mundo seria melhor. Por exemplo: É correto ou não uma pessoa mentir? Não! Pois sua ação resultaria na desconfiança dos demais, mesmo que fizesse isso por necessidade. Se toda a humanidade mentir, ninguém mais se entenderia. E isso seria ruim inclusive para quem mente, pois caso necessitasse da ajuda de outrem não encontraria quem o socorresse.
Constant contesta o filósofo alemão, afirmando que nenhuma ação pode ser ética se for contra o ser humano. Ele apresenta o seguinte exemplo: um assassino bate a nossa porta com a intenção de matar um amigo que se encontra refugiado em nossa casa. Ao perguntar se nosso amigo está em nossa casa, nós devemos lhe dizer a verdade? Constante afirma que não, pois o direito está associado ao dever. E você não tem o dever de dizer a verdade, pois o assassino ao infringir a lei não tem o direito à verdade. Kant rebate a crítica de Constant argumentando que a verdade não é subjetiva nem psicológica, mas lógica e objetiva...
Raquel encerrou minha explicação, fazendo minhas palavras cessarem. Ela segurou com firmeza e carinho a minha mão. E puxou-me com suas caricias em sua direção. Os seus lindos olhos irradiantes lançavam as flechas de Eros em meu peito e atingiam a minha alma. Seu rosto foi se aproximando do meu; seu nariz fino se expandiu; de sua boca inalava um hálito quente e misturado com o aroma do vinho que entrava pelas minhas narinas e me fazia sentir a pulsão de vida, como eu nunca experimentara.
Fiquei transtornado, minhas mãos tremiam; não senti os meus pés tocarem o chão; meu coração disparou; minha respiração ora estava presa ora ofegante; fiquei tão excitado, parecia até que meu pênis tinha forças suficientes para furar minha calça...
Eu desejava estar lá mas também não queria; meus sonhos noturnos mais ansiados e profundos e os mais tenebrosos pesadelos diurnos estavam ganhando concretude... E em um ato inconsciente, meu corpo se jogou para trás e quase caio da cadeira. No susto, derrubo a taça de vinho, derramando parte do liquido em meu rosto e outra parte nos seios de Raquel.
– Desculpe-me, por favor...
– Fique calmo padrezinho. O amor une o que você acabou de falar desses dois filósofos. Se toda a humanidade amasse com certeza o mundo seria bem melhor. Então amar é um dever de cada pessoa, pois todos têm o direito de ser amado.
Nossa! Ela estava certa! Alguns pensadores passam suas vidas dedicando a quebrar uma teoria, publicam várias obras para tal. Raquel com meia dúzia de conversa resolveu essa querela filosófica. Santo Agostinho mesmo já afirma: “Ame e faça o que você quiser, pois nada do que você fizer por amor será pecado”.
Cedi aos encantos de Raquel, me envolvi em seus braços, tracionei seu corpo contra o meu e a beijei... Uma experiência única, mística! O seu gosto com certeza era de Ambrosia, o manjar dos deuses. E era verdade o que diziam... quem dele degusta, experimenta uma enorme felicidade e ganha a imortalidade...
– Calma. Calma! Eugênio. Você vai me esmagar e engolir...
As palavras dela me trouxeram de uma espécie de transe profundo em que me encontrava para a realidade. – Desculpe-me. Eu a machuquei? Desculpe! Eu nunca havia beijado ninguém.
Ela sorriu e se levantou, estendeu a mão para mim.
– Não era para ter parado. Estava uma delícia. Vem, vamos para meu quarto.
Levantei e deixe-me ser conduzido por ela. Seu andar era acompanhado de um belíssimo rebolado, que se somava ao balanço de seus cabelos. Parei, puxei a sua mão e a peguei no colo e a levei para o quarto.
Ainda em meus braços nos beijamos, ela desceu de meu colo e tirou minha roupa, acompanhado com beijos, carinhos em meu corpo e algumas mordidas no pescoço e mamilos. Fui fazer o mesmo, mas ao puxar os botões de seu vestido coloquei tanta força que estourei a costura de alguns.
– Ai desculpa. Acho que estraguei o seu vestido.
Ela puxou o meu rosto diante do seu, tirou o vestido e depois o sutiã. Pôs minhas mãos em seus seios. Esses macios, firmes, pontiagudos. Comecei a chupá-los... Raquel empurrou minha cabeça e cai sentado sobre a cama. Ela se deitou ao meu lado e beijamos loucamente.
– Vem Eugênio. Faça-me sua mulher. Ame-me à noite toda.
Deitei por cima de Raquel. Tentei encontrar o lugar mágico, mas não achava. Então ela segurou meu pênis e o inseriu em sua vagina... Porém o que era para fluir normalmente foi interrompido por um demônio que entrou em meu corpo e tirou de mim a potencialidade. Procurei assim mesmo penetrar nela, mas sem efeito. Sai de cima dela, fiquei ao seu lado e soltei um suspiro de ódio. Que sensação péssima. Preferia mil vezes ter sido morto por aquela patrulha nazista a estar vivendo aquela situação.
– Calma, Eugênio! Eu sou judia, esqueceu? Por isso Deus não está como um cão de guarda cuidando de nossas ações a fim de nos punir depois; ou Ele está muito atarefado tentando amenizar e acabar com a barbárie de Auschwitz, ou se cansou de tantos erros cometidos contra a humanidade e está dormindo...
– Ah! Que desgraça! Nunca estive com uma mulher. Então Deus coloca em meu caminho a mais bela mulher que já tive a oportunidade de apreciar, a de cheiro mais encantador...
– Que lindo! Só o fato de estar com você é uma benção, uma prova de que o amor puro sem segundas intenções ainda é possível.
Raquel voltou a beijar e acariciar os meus cabelos. Suas palavras e maneira de agir revigoraram minhas forças. E... Sim! Venci o demônio! Ele foi exorcizado abrindo espaço ao amor, ao divino.
Desta vez foi ela que subiu em cima de mim e me inseriu dentro dela e começou a se mexer. Estava muito quente e molhada. Seu cabelo batia em meu rosto; seus seios tocavam e pressionam contra o meu corpo; seu suor escorria pelo meu corpo banhando-me como um óleo sagrado. E eu dentro dela formamos uma só carne, movidos pelo mesmo espírito.
Tive um orgasmo magnifico tal como se minha alma abandonasse meu corpo e encarnasse nas expressões de felicidades presentes no rosto de minha amante. O momento presente mergulhou no infinito e embebecido dele se tornou eterno. Não havia passado nem futuro. Apenas Raquel.
Transamos mais duas vezes, depois ficamos deitados, abraçados, não sei se esperando revigorar as forças físicas ou aguardando as nossas almas que haviam se unido, separar e voltar a preencher nossos corpos. Raquel pediu para mexer em seu cabelo e assim o fiz e ela adormeceu em seguida. Eu demorei um pouco para dormir, mas não muito. Fiquei ouvindo a perfeição da respiração dela e pensando no belo presente dado para mim por Deus...
Acordei com sopro em meu ouvido dado por Raquel. Ela estava novamente vestida com o hábito dado a ela por Padre Calisto.
– Bom dia, soninho gostoso. Acorda! Nós precisamos continuar a viagem.
– Bom dia! Não podemos ficar só mais um pouquinho?
– Hum-hum! Temos que ir.
Levantei, meu corpo estava todo dolorido, parecia que tinha sido atropelado. Enquanto Raquel arrumava a cama, coloquei minha roupa, vi os botões de seu vestido arrancados na noite passa e os apanhei do chão.
– Deixe-me arrumar o seu vestido. Eu sei costurar e gostaria deixar o seu vestido bonito novamente.
Raquel fechou minha mão com os dois botões de seu vestido. – Guarde-os com você para lembrar-se de mim. Eu conservarei o vestido deste jeito, assim sempre o terei perto de mim. O meu vestido e esses dois botões serão para nós símbolos de uma noite de felicidade dada no auge do horror da guerra. Da mesma forma que uma flor rebenta na escassez do deserto revela toda a força de vida escondida debaixo da terra arrida. Esses símbolos serão para nós sinais de esperança de que é possível o amor mesmo quando tudo parecer perdido e sem solução.
Eu os coloquei em meu bolso. – Então eles serão para mim sagrados, os levarei para onde for. E todas às vezes que os observar ou tocá-los, eles me mostrarão o que devo fazer para deixar o mundo o mais próximo possível da beleza dessa noite.
Ela sorriu. – Você é um lindo!
Fui ao meu quarto, escovei os dentes, lavei o rosto, vesti minha batina, ajuntei os poucos pertences que trouxe comigo e fui ao encontro de Raquel, que estava de mala pronta esperando-me.
– Vamos tomar café e depois saímos.
– Não tem nada na cozinha, só havia o que fiz ontem no jantar.
– Fique aqui, ferva a água. Já volto, só vou à mercearia comprar, não podemos sair sem comer, ainda temos um bom caminho para percorrer.
– Eugênio, é muito perigoso, devemos ir.
– Por favor, tomamos café e saímos.
– Eugênio...
Beijei Raquel e sai. Eu estava com uma sensação tão boa, queria tanto ter um amigo por perto, alguém que poderia confiar para contar minha experiência. Andava pelas ruas não mais como um seminarista, mas como um homem pronto.
A mercearia era duas quadras da casa paroquial. Devido à guerra não havia muita coisa. Peguei pães, café e leite. O dono do comércio me viu e veio puxar assunto. – A sua benção padre.
– Deus te abençoe.
– Que bom o senhor estar aqui. Faz tempo que não temos missa e eu estou há quase um ano sem confessar. Qual será o horário da celebração? Eu mesmo avisarei os paroquianos.
– Infelizmente, ainda não sou padre e estou de passagem pela cidade. Estou quase terminando os estudos, prometo que virei aqui celebrar uma missa após minha ordenação.
– Que Deus te ouça! Mas o padre está na casa paroquial? Os seminaristas não saem sós, não é?
– Estamos em tempos difíceis, a guerra faz com que mudemos um pouco de hábito. Quanto ficou minha compra?
– Para o senhor não é nada. E pode ficar tranquilo a guerra está acabando, Hitler está acabando com esta raça desprezível.
Maldito vendedor. Deu uma vontade de proferir um soco em sua cara gorda. Mas não poderia entrar em tamanha confusão, não agora. Tinha que ser discreto, deveria ter ouvido Raquel e não ter ido lá.
– Não, insisto, cobre, por favor.
– Já disse não é nada. O senhor pagará ao vir em nossa capela para cantar a missa e atender nossas confissões.
– Obrigado então.
– Quem dá a Deus recebe em dobro, não é?. Até mais.
Sai sem responder e vou para a casa paroquial. Ao chegar, encontro Raquel desesperada e chorando. – Por que demorou tanto? Precisamos ir.
– O dono da mercearia começou a conversar comigo. Não se preocupe aqui está tudo em paz, ele nem quis cobrar. E não há nenhuma movimentação dos nazistas. Vamos comer e depois saímos.
Raquel pegou o pó de café, o passou no coador. Eu coloquei o leite em uma jarra e os pães em uma pequena cesta. Sentamos à mesa e começamos a comer.
– Raquel o que você fazia antes da guerra?
– Sou professora, lecionava literatura. E você? Quanto tempo ainda é preciso para ser padre?
– Um ano e meio, mas vou deixar o seminário, vou participar da resistência.
– Seja padre, como tal, você poderá contribuir muito com a nossa causa.
– No momento em que te encontrei, eu estava decidido a entregar minha carta de renúncia para o Padre Calisto. Depois de ontem, tenho mais um motivo para tal, eu te amo Raquel...
– Menino! Você é adorável. Mas ainda não sabe nada do amor. Não sou mulher para você. Eu já estou calejada pelo tempo, enquanto você está se desabrochando para a vida.
Abaixe a cabeça e parei de comer, suas palavras me feriram profundamente. Raquel passou a mão em minha cabeça e depois levantou meu rosto.
– Eugênio não fique triste. Tudo o que aconteceu ontem foi lindo, mágico, profundo e verdadeiro. Após acabar a guerra, se você quiser, posso te visitar outras vezes e poderemos repetir várias vezes o que fizemos tão gostoso na noite passada. Só não quero que você faça alguma bobeira por minha causa e depois venha se arrepender no futuro.
– Foi mágico?
– Muito...
Abracei Raquel e comecei a beijá-la. – Vem vamos para o meu quarto desta vez.
– Eugênio... precisamos ir.
– Por favor.
Levantei e lhe estendi a mão. – Vamos nos amar mais uma vez.
– Não podemos...
– Te imploro!
Levantei e estendi a mão. Ela hesitou, mas consegui convencê-la. E a pus em meu colo novamente e a levei para o quarto. Tirei o seu hábito, desta vez sem nenhum desastre; despi-me; deitamos na cama; subi em cima dela e fiz amor desta vez bem tranquilo e com muita confiança em mim. Eu mexia com grande força dentro dela e também a beijava constantemente. E ela puxava o meu cabelo e arranhava as minhas costas com muita intensidade.
Senti minhas pernas repuxarem, abracei forte Raquel e mexi o mais rápido possível até chegar ao orgasmo... Neste momento, ouço um estouro. E entra de repente o sargento e dois soldados que encontrei no dia anterior, o dono da mercearia, o bispo diocesano e padre Calisto, esse sem forças para andar e carregado pelos soldados, cheio de ferimentos no corpo, em especial no rosto.
O sargento golpeou-me com o cabo do fuzil, derrubando-me no chão. E pegou Raquel pelo cabelo e a arrastou a pontapés e socos para fora da cama. Levantei e parti em defesa dela. Os soldados soltaram padre Calisto, que caiu no chão, me seguraram e bateram muito com cassetete e jogaram-me próximo a padre Calisto. Ele murmurando, disse:
– Perdão filho por ter evolver nisso. A culpa foi toda minha.
O sargento gritou para um dos soldados. – Levante a cabeça deste merdinha para aprender conosco aquilo que seu pai não ensinou.
Levei alguns socos na cabeça e no rosto. O dono da mercearia, o sargento e o bispo saíram do quarto. Esse último mandou os soldados me vestirem e levar a até ele.
Os soldados derrubaram Padre Calisto no chão. E um deles o matou sufocado, pisando em seu pescoço com o coturno até os últimos suspiros de meu formador. Mas, Calisto morreu sorrindo, acho que ele sabia que estava dando a vida por algo inspirado pelo Espírito Santo, atualizando assim a mensagem salvadora de Cristo.
O outro soldado entregou minha roupa com um soco em meu peito. – Vista seu traidor de merda, você terá o mesmo destino dessa puta judia e desse padreco viado. Mas, antes, o bispo, quer falar com você.
O sargento ficou interrogando e batendo em Raquel. E os soldados me conduziram ao outro quarto, o mesmo palco onde ela e eu nos amamos na noite anterior, e agora era ocupado pelo Senhor Bispo, que me esperava sentando em uma poltrona.
Ele voltando aos dois soldados disse: – Nos deixe a sós, precisamos conversar. E se dirigindo a mim. – Ajoelhe-se!
Os soldados saíram e ele me perguntou: – O que você tem a dizer em sua defesa?
Ajoelhei, mas não conseguia dizer uma só palavra, eu estava tomado de medo e horror da cena anterior e só pensava nos gritos e choros de Raquel e em padre Calisto caído morto e olhando para mim com os olhos saltados. O bispo disse mais algumas coisas, mas não consegui assimilar. Só voltei à realidade após ser esbofeteado pelo bispo.
– Eugênio. Sua situação não é nada favorável, os militares querem a sua cabeça. Eu sou amigo pessoal do Führer, posso te ajudar. Se você colaborar, lhe imporei o silêncio obsequioso sobre tudo o que aconteceu nesses dois últimos dias. Você não poderá fazer alusões ao acontecido. Pedirei aos soldados que o encaminhe a um mosteiro, onde você deve permanecer por uma semana em jejum, penitência e oração. Após este período, você deve vir a mim a fim de fazer sua confissão; depois será reconduzido ao Seminário Santo Anselmo, de onde você nunca deveria ter saído e até receber o primeiro grau da ordem, neste período somente sairá acompanhado de seus superiores e colegas de estudo para a faculdade ou para participar do mistério eucarístico. Mas para isso preciso saber de tudo. Você vai me ajudar?
– Vou...
Calisto, um não merecedor da ordem sacerdotal lhe foi confiada, disse que você era inocente, não sabia nada de seu plano para proteger aquela meretriz. E, ao trazê-la, você estava crente que estava comprimindo minhas ordens, inclusive lhe foi entregue uma carta falsa de transferência com minha assinatura. Você confirma essa versão?
– Sim...
– E ela te contou que era judia e estava fugindo dos militares?
– Também!
– E por que você não a denunciou? E, o que é mais grave, por que se envolveu fisicamente com ela, quebrando o santo celibato, conditio sine qua non à sua vocação sacerdotal?
Abaixe minha cabeça. O clima da conversa era muito tenso. A autoridade tem o poder de inverter os fatos e fazer das vítimas os algozes da situação. Ele deveria estar chorando comigo nesse momento e se desculpando por não ter conseguido evitar aquela barbárie, no entanto estava os criminalizando, tal como se eles fossem os culpados de seus tristes fins. E eu estava sendo julgado por aquele que deveria ser meu pai espiritual, meu protetor. Não tive coragem de contar que desejei e amei Raquel e por ela mudaria definitivamente de vida. Coloquei as mãos no bolso e encontrei os botões do vestido. Tocando-os tive inspiração para inventar uma história.
– Ontem chegamos aqui bem tarde. Estávamos muito cansados. Ela preparou a refeição, jantamos e fomos dormir cada qual em um quarto. O Senhor pode confirmar isso, pois a mala dela ainda está aqui e a minha no outro quarto. Hoje de manhã, fui à mercearia comprar pão. Após tomarmos o café, ela, vestida com o santo habito, contou que era judia e estava sendo perseguida pelos nazistas. Levantei desesperado da mesa e fui para o meu quarto, sem saber o que fazer. Não sabia se estava ou não seguindo vossas recomendações. Ela veio em meu quarto se despiu, pôs minhas mãos em seu corpo, me fez deitar na cama e disse que faria algo mágico por mim...
– Eu sei bem como é. Ela aproveitou de sua inocência, ingenuidade e lançou um feitiço para te seduzir. O que ela disse que era mágico, em verdade foi uma bruxaria. As suas atitudes de nada diferenciam das de Eva.
– O senhor acha?
– Tenho certeza, mas me diga o que ela contou sobre os planos da resistência?
– Nada...
– Nada!? Ela não falou onde eles estão escondidos?
– Não.
– Preciso que você colabore. Diga tudo o que sabe.
– Estou dizendo a verdade, o senhor precisa acreditar em mim.
– Não! Acho que você é um traidor e não merece viver...
Ele se levantou, benzeu-me, chamou os soldados e foi embora juntamente com o dono da mercearia. Os dois soldados entraram, um deles deu um chute em minha cabeça, fazendo-me cair, colocou o fuzil em minha cabeça e berrou:
– Você vai queimar no inferno, padreco.
O outro soldado puxou esse e disse:
– Espere um pouco, deixa eu comer esta bicha.
– Não. Vamos acabar com isso logo...
– Esses padres fazem a melhor chupeta de todas.
Ele abaixou a calça e ordenou para que eu o chupasse. O outro soldado saiu do quarto blasfemando. Enquanto aquele batia o seu pênis em minha cara. – Chupa! Seu viadinho, chupa gostoso, que te deixou viver.
Ele desferiu um soco em minha cara, puxou o meu cabelo e enfiou o seu pênis em minha boca. Aquilo foi horrível, senti náuseas. E ele gritou: – se vomitar, morre!
Fechei os olhos, lembrei-me do Olho de Deus, senti os seus feixes dourados saindo da pintura e entrando em meu coração. Segurei a respiração, engoli o máximo possível aquele pênis nojento, sujo e o mordi com todas as minhas forças.
Ele caiu, gritando e pedindo ajuda. O outro soldado correu em nossa direção, consegui pegar o fuzil daquele e disparei contra esse ao entrar pela porta. Depois matei aquele, que agora chorava por misericórdia. E, com o fuzil na mão, corri para o quarto que se encontrava Raquel.
Ao entrar fui atingindo no estomago pelo sargento e cai ajoelhado. Raquel toda ensanguentada, pulou em seu pescoço. Levantei o fuzil e como Moisés fizera com o carrasco que batia no escravo judeu, atirei contra ele. Assim, entendi e resolvi o dilema de Epicuro, Deus não o resolve logicamente, mas Ele assume o mal, padece sobre ele e sofre em virtude dele. E dá a sua vida para combatê-lo, tal como foi a morte na cruz. 
E cai novamente sem forças, Raquel correu em minha direção e se jogou sobre o meu corpo, lentando minha cabeça seu colo. – Eugênio, Eugênio, fale comigo... Não morra! Eugênio.
O seu rosto, embora todo machucado, continuava lindo! Algumas gotas de seu sangue misturado com lágrimas caíram sobre mim. Mas os seus ferimentos foram se fechando e se tornando dourados. Ao invés de sangue, agora brotava luz, muita luz.
Desfaleci, assim, mas ao invés de escuridão e frio, estava envolto por luz e calor. E a cauda do dragão arrastou consigo um terço das estrelas do céu, mas ele foi vencido. E a mulher pode continuar o seu caminho.