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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Quando o medo faz escola

Terça-feira, 20h40, hora do intervalo na Escola Estadual Padre Tiago Alberione, Cidade Júlia, bairro de periferia da zona sul de São Paulo. Alunos e alunas do período noturno conversam em rodas, fumam, paqueram, fazem piadinhas sobre futebol (palmeirenses "louvam" o Grêmio e corintianos, o Boca Juniors) -como em qualquer colégio.

Algumas imagens, no entanto, não combinam com a hora do recreio. Um carro da Polícia Militar está estacionado dentro do pátio e três policiais circulam entre os estudantes. No lado de fora, pelas frestas do portão, pais e mães se espremem para checar se está tudo bem.

Escola modelo até quatro anos atrás, quando chegou a ser usada como exemplo na campanha eleitoral do falecido governador Mário Covas, a Tiago Alberione foi parar no noticiário policial na semana que passou, vítima de uma espiral de violência que inclui ameaças de morte, professores agredidos em sala de aula, carros incendiados no estacionamento, alunos espancados dentro do banheiro ou em fila, mãos na parede, revistados em pleno pátio.

No começo da semana, apavorados, os professores suspenderam as aulas para pedir mais segurança. As aulas voltaram, mas a rotina pouco mudou.

Cidade Júlia é um daqueles bairros que se encaixam na categoria "favela melhorada", típicos da periferia paulistana: mal iluminados, ruas esburacadas, com milhares de barracos. A escola está encravada entre dois pontos de venda de droga controlados por quadrilhas adversárias. Ali se cumpre fielmente a lei mais respeitada na periferia, a do silêncio. Quem fala pede sempre para não ser identificado.

"Há garotos de fora que entram na escola porque querem matar alunos. Eles invadem a quadra e dão tiros.

No intervalo, você tem que ficar segurando o material para não roubarem. Os professores têm medo e não querem mais dar aula aqui", descreve Simone*, 15, do 1º ano do ensino médio.

"Eu vejo a escola como um campo de guerra: morte e desordem", escreveu Adriana, 11, 5ª série, integrante do grupo de 20 alunos que, a pedido da Revista, colocaram no papel o que a escola representava para eles. Fernanda, 12, 6ª série, foi mais sintética: "Papapá. Pum, pum. Hahahá. Socorro".

A realidade violenta não é monopólio da Tiago Alberione. Segundo pesquisa concluída em dezembro pela Udemo (Sindicato de Especialistas em Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo), que consultou 496 escolas da rede pública estadual, 81% sofreram algum tipo de violência no ano de 2000. A pesquisa mostrou ainda que 84% registraram agressões ou desacato a professores; 68%, brigas internas envolvendo alunos; 24%, tráfico e consumo de drogas dentro da unidade escolar; 22%, ameaças de morte (a alunos, funcionários, professores ou direção); 19%, invasão de estranhos; 18%, porte de armas; e 4%, homicídio de alunos.

Mas no caso da escola da Cidade Júlia o que dói, dizem os envolvidos, é o fato de a escola "modelo" ter "degringolado". "As mães faziam fila de madrugada para conseguir colocar seus filhos lá dentro", lembra o líder comunitário Ubiratã Virgínio da Silva, 38. "Havia festas, atividades culturais, as famílias podiam desfrutar de tudo isso, havia integração com a comunidade."

Por que mudou?

"É aquela coisa. Um aluno pobre, com pais pobres, vivendo uma vida miserável, e um professor que também tem problemas financeiros. Aí, um fala mais alto e pronto, começa uma briga", opina Adilson, 37, policial militar que há 13 anos faz ronda escolar em 12 escolas da região, incluindo a Padre Tiago Alberione.

Adilson é um dos vértices da situação que opõe alunos, professores e policiais, gente que convive no mesmo ou no bairro ao lado, com perfil social parecido e um cotidiano de poucas perspectivas.

Alunos e alguns professores atribuem a derrocada da escola a uma sucessão de direções incompetentes e ao aumento da violência. Mas o conflito explodiu, dizem, depois de 5 de junho, quando três policiais -um deles identificado como "Diabo Loiro"-, chamados pela escola, espancaram um aluno no banheiro da escola.

Adilson não acredita nessa versão. "Todo mundo fala que bateram nele, mas cadê o BO? Por que não deram queixa?" Mas admite que já tentou encontrar na companhia em que trabalha alguém que se encaixe na descrição que os estudantes fizeram do policial mais violento -alto, loiro e de olhos azuis. Não achou ninguém.

Ele acha que pais e alunos têm sua parcela de responsabilidade. "Olhe o que os seus filhos fazem! Depois vocês vêm aqui na porta reclamar da escola e da polícia. Eles picham os muros, quebram carteiras, criam desordem", resmunga para alguns pais. "São 'malunos', mistura de maloqueiros com alunos."

O policial mora em Vila Clara, também na zona sul. Seus dois filhos (de 6 e 9 anos) estudam em escola pública. Como o salário é insuficiente para sustentar a família (a mulher não trabalha fora), o policial faz bico no comércio. Somando os dois empregos, ganha cerca de R$ 1.500.

É pouco mais do que os R$ 1.260 recebidos por Antônio, 30, que dá aula no Thiago Alberione há oito anos.

Professor em duas escolas da rede pública, Antônio trabalha de manhã e à noite, de segunda a sexta. Tem aproximadamente 400 alunos. Não é casado nem tem filhos.

Tem boa relação com os alunos do colégio, algo fundamental para quem mora no mesmo bairro e vai trabalhar a pé. É um dos mais respeitados da escola, segundo os estudantes, mas também já sofreu agressão física.

"Eu estava dando aula e um menino começou a chutar a porta, queria entrar. Eu gritei com ele, e ele voou para cima de mim. Fiquei calmo, levei na conversa", conta.

Proibido, como todos os professores, de dar entrevistas, Antônio não esconde o medo. "É terrível trabalhar assim, com ameaças de morte, medo de sair à rua e a secretaria pressionando você a continuar." Antônio defende os alunos, acredita que é preciso abrir um canal de diálogo, ganhar respeito e não impor.

"Enfim, ser educador. Esses são os professores que se dão bem entre alunos barra-pesada", resume.

Ele descreve um cenário comum: a maioria tem pais desempregados e mães que sustentam a casa (muitas são empregadas domésticas ou faxineiras). Os que conseguem concluir o ensino médio logo se casam, formam família, sem nenhuma perspectiva de carreira profissional. Sabem que não terão oportunidade de fazer uma faculdade.

"Muitos são perueiros clandestinos, sofrem ameaças, ou são office-boys. Nenhum tem dinheiro. É o desemprego, a influência do bairro onde vivem, nenhuma perspectiva de futuro. Um total abandono aliado a uma educação que exclui." Para Antônio, não adianta endurecer, gritar, ameaçar ou chamar a polícia.

"Isso foi um erro grave. Acredito que os vandalismos que assombraram a escola depois foram uma resposta direta do grupo contra a agressão a um de seus líderes", afirma.

Antônio diz que chegou a conversar com Diego, o aluno supostamente espancado. "Disse para ele sair do meio da confusão e se controlar, para não revidar a agressão." O professor conta que muitos de seus colegas são a favor da expulsão de Diego. "Eu acho que ele merece uma chance, é um garoto especial."

Pivô Personagem central do conflito, Diego, 19, 1º ano do ensino médio, estuda na Padre Tiago Alberione desde o primário. Todo mundo o conhece, e é apontado por muitos colegas como um dos autores do incêndio ao carro de um professor, ocorrido no dia 13. "Não sou cabeça de nada", ele diz, "mas 'eles' sempre pegam os inocentes".

Diego diz que apanhou no dia 5 de junho, depois que a escola amanheceu cheia de cartazes que ameaçavam a diretora. A agressão, afirma, durou 20 minutos. "Um dos policiais gritava que eu era um vagabundo qualquer, que qualquer dia ia me matar. Levei coronhadas no peito e consigo me lembrar da dor forte dos dois primeiros chutes no saco... Os outros, nem senti mais", conta. Ele diz que ficou mal quatro dias.

Pai eletricista, mãe que trabalha em bar, Diego é o quarto filho entre cinco irmãos, um deles deficiente físico. Já foi professor de dança na escola, toca percussão em um grupo de pagode e diz que integra um grupo de pichadores chamado Furanos.

Nunca morou fora da Cidade Júlia; cresceu ali e sabe que não tem muitas chances de sair. "Mas o Katinguelê era dessa região, né?", lembra. "Queria ser assim, como eles. Fazer sucesso, andar em paz.

Tento ir para o lado certo, mas às vezes você não faz nada e a bomba cai em cima de você."

Negro, diz que já perdeu a conta de quantas vezes apanhou da polícia -na rua, no bairro, na escola, com amigos, sozinho. Enquanto se despede, avisa um colega de turma: "Não volta para casa pela rua de trás, não. Cuidado. Ontem mataram dois ali".

Para os moradores da "rua de trás", a Guaicuri, não faltam mesmo histórias: troca de tiros toda madrugada, traficantes que teriam expulsado moradores de quatro casas, uma senhora que foi assassinada por engano, quando voltava para casa. Virou rotina. "Não tenho mais medo, já estou acostumada. Olha, são 21h e eu estou na rua", afirma Patrícia,17, 3º ano.

Boa aluna, ela se revolta com a situação do colégio. "É horrível estudar assim, o aprendizado é zero."

Culpa os colegas "baderneiros", mas não livra a cara dos mestres. "Quando o professor demonstra medo, falta de pulso firme, os alunos não o respeitam. Tem professor que é xingado na sala de aula e abaixa a cabeça."

Filha de mãe secretária e pai mecânico, um irmão, Patrícia já trabalhou como recepcionista e vendedora de artigos protéticos, mas agora está sem emprego. Adora as aulas de matemática e gostaria de se formar em odontologia. "Mas vai ser difícil, né. O dinheiro é curto, o ensino é fraco. Eu queria mudar de escola, mas fico porque esse é o meu último ano."

Às vezes, se imagina estudando num colégio particular. "Deve ser tão diferente. Mas os alunos, não. Filhinhos de papai não estão nem aí, não têm educação", acha.

E se tivesse o poder de mudar o que quisesse na escola?

"Você viu aquele filme, 'Ao Mestre com Carinho'? (James Clavell, 1967)", ela pergunta. "Acho que é disso que a gente precisa. Mais professores assim, que nos respeitam, que querem ajudar, que conversam com a gente. Se todos os professores fossem como o do filme, a escola estaria salva."

Antônio, que já foi seu professor, não concorda. "Temos que entender a problemática do nosso país e parar de sonhar com heróis de filme americano. Eu dou todo o incentivo para professores assim, mas o nosso país é outro, nossa realidade, também."

O pesquisador Eduardo Brito, 32, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, aponta outro aspecto de situações como a da escola Padre Tiago Alberione. "Esse ambiente de exclusão, de miséria, de abandono, vai pouco a pouco minando a capacidade do indivíduo de sonhar, de querer fazer as coisas. Isso é o mais grave, o mais triste." É a escola ensinando que o horizonte, infelizmente, termina logo ali.

Folha de S. Paulo - Revista da Folha
Débora Yuri
24/06/2001