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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Critica à Filosofia Moderna, a partir do Pensamento Complexo

Wilson Horvath


Navegar é preciso; viver não é preciso (Fernando Pessoa).

Nós introduzimos a reflexão sobre Filosofia Moderna a partir deste pequeno em tamanho, gigante em significado, verso de Fernando Pessoa: “Navegar é preciso; viver não é preciso”. Como toda a obra clássica, ele nos sugere várias interpretações e significados que se entrelaçam concomitantemente.
A primeira interpretação é que: este verso fora retirado da inscrição do pórtico da Escola de Sagres, escola de navegadores, situada em uma pequena e bucólica cidade de Portugal, em que, queria passar aos jovens marujos, que viver na melancolia daquela cidade não era vida ou uma vida digna de ser vivida; a verdadeira vida estava nos desafios e nas aventuras e proporcionadas pelos descobrimentos e navegações.
A segunda interpretação, que vai ao encontro da primeira, é que não é preciso viver, pois vivemos, a vida já nos fora, de alguma forma, dada. O que é preciso é torná-la significativa.
A terceira interpretação, faz uma crítica ao pensamento moderno. Os navegadores de Sagres faziam uso da bússola, este recente, para época, aparelho auxiliava os marujos a chegar com precisão ao local de destino. Enquanto que, infelizmente ou felizmente, a vida não tem uma bússola que nos mostre as coordenadas por onde devemos caminhar. Assim, viver não é preciso, ou seja, não há como prever, predeterminar. Encontramos a explicação deste verso em outro grande poeta: “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar” (Antônio Machado).
O pensamento moderno com sua ciência e técnica pretenderam e pretendem coordenar toda a atividade no globo terrestre, seja em relação à natureza, seja na relação do ser humano com o outro, até a relação com o transcendente. Assim, tudo deve passar pelo viés da racionalidade moderna que pré-determina o que é correto e cientificamente comprovado e o que é errado, por não ser científico, ou seja, por ser folclórico ou mitológico.
O pensamento moderno surgiu com uma nobre missão: libertar o ser humano das amaras dogmáticas da Igreja Católica; e dar a ele: as rédeas para controlar a sua vida. Porém, os Filósofos modernos ao combater a tirania do pensamento único-católico, entregaram o ser humano à tirania de outra forma de pensar, que segundo Edgar Morin é movimentado por quatro motores: científicos/técnicos/industriais/capitalistas. Estes quatro motores está pondo em risco a continuidade da vida humana, animal e vegetal no globo terrestre (1997, p. 120).
Nós, neste início de terceiro milênio, para garantirmos a sobrevivência da espécie humana, como toda a vida no planeta, temos que corrigir estas imperfeições oriundas do pensamento moderno. Não se trata, pois, de negar os avanços do pensamento moderno e procurar impregnar ao ser humano, novamente, a mentalidade medieval. Primeiro, porque, o pensamento medieval dentre seus vários acertos, apresentava falhas, sendo algumas destas corrigidas pelos modernos, e, mesmo se quisermos, é impossível voltarmos atrás. Segundo, porque os modernos trouxeram vários avanços à humanidade, que não podem ser desprezados. Assim, o que devemos fazer é dar continuidade as suas labutas intelectuais, corrigindo aquilo que eles, em sua época, não conseguiram perceber ou não era apresentado como problema. E tendo em mente, que ao fazê-lo criaremos novos problemas que serão postergados a humanidade. Mas, não podemos sucumbir de nossa responsabilidade, temos que resolver os problemas que nossa humildade consciência consegue, hoje, enxergar. Assim, caminha a humanidade, numa dança ad aeternun entre o certo e o errado, entre as forças de morte e a pulsão pela vida.
A mitologia grega pode nos ajudar a entender esta dinâmica: Zeus engana seus dois irmãos Hades e Poseidon, conduzindo o primeiro as profundezas da terra e o segundo aos mares, tornando, assim, senhor absoluto do céu (Olímpio). Hades elabora um plano para a destruição de Zeus, fazendo-o pensar que iria fazer a humanidade voltar a adorá-lo e, com isto, fortalecer a Zeus com as orações da humanidade. Hades consegue a permissão de Zeus, para por em prática seu plano, porém, ele amedronta a humanidade o que ao invés de aumentar o poder de Zeus, aumenta o seu e, ao mesmo, tempo enfraquece a Zeus. Hades convence seu outro irmão Poseidon, a colaborar em seu plano, este que envia Kraken, um mostro marinho tem a missão de destruir a humanidade. O único que pode salvar a humanidade é Perseu, mas para tal, o herói precisa da cabeça da górgona Medusa, pois, ela tem o poder de transformar todos aqueles que olham diretamente para ela em pedra. Perseu para não ser transformado em pedra, enfrenta a Medusa, olhando a imagem dela refletida em seu escudo, com isto, Perseu corta a cabeça de Medusa e com ela destrói o monstro marinho.
Esta é a condição humana, na qual, não podemos esquecer, ao enfrentarmos os problemas deixando pelo pensamento moderno. Nós, enquanto Homo Sapiens-Demens temos a missão de salvar a humanidade, onde o nosso principal inimigo, seguindo a reflexão de Hobbes é o próprio humano, ou homo homini lupus. E ao fazê-la, nós não teremos uma clarividência da realidade, conseguimos, como Perseu, apenas vê-la refletida e, muitas vezes, esta reflexão é distorcida e embasada, mas, mesmo assim, é a única forma de enfrentarmos os desafios que nos são apresentados, o que na atualidade são oriundos do modo de pensar ou paradigma moderno.

Paradigma Moderno

Paradigma é, para Morin: “princípios 'supralógicos' de organização do pensamento (...) ocultos que governam nossa visão das coisas e do mundo sem que tenhamos consciência disso” (2006, p. 10). Assim, é por meio dele que conseguimos ver e aprender o mundo, mas, ele igualmente esconde e nos cega para outros aspectos que fogem de seus limites epistemológicos. O paradigma pode ser concebido, ao mesmo tempo, conforme o sentido idealista ou materialista:

O sentido idealista faz do paradigma a ideia mestra que comanda em sua toda a organização social, a qual seria como um produto das forças organizadoras do espírito; o sentido materialista faz do paradigma a expressão ou resultado em termos simbólicos e ideias das realidades sociais materiais que são as relações entre as forças produtivas (Idem, 1997, p. 40).

O paradigma, oculto, não existe virtualmente em um lugar, ele só existe ao se manifestar concretamente em nossa existência humana. Assim, como ele está oculto, o percebemos ao depararmos com os problemas oriundos dele. Os modernos se depararam com as falhas do paradigma medieval, ao surgir uma nova classe social que exigia uma nova forma de pensar: A burguesia. Dessa forma, percebemos o paradigma moderno e suas falhas, ao depararmos com os problemas, que aparecem com maior intensidade no século XX. Este paradigma consiste:

(…) “grande paradigma do Ocidente”, formulado por Descartes e imposto pelo desdobramento da história europeia a partir do século XVII. O paradigma cartesiano separa o sujeito e o objeto, cada qual na esfera própria: a filosofia e a pesquisa reflexiva, de um lado, a ciência e a pesquisa objetiva, de outro. Esta dissociação atravessa o universo de um extremo ao outro:
Sujeito/Objeto
Alma/Corpo
Espírito/Matéria
Qualidade/Quantidade
Finalidade/Causalidade
Sentimento/Razão
Liberdade/Determinismo
Existência/Essência (MORIN, 2000, p. 26).

O paradigma moderno fragmenta o conhecimento, e ao fragmenta-lo, cinde a nossa capacidade de compreensão da realidade, desde o próprio humano a natureza, incluindo nossas interações reais, formulações teóricas e propostas utópicas. Além, deste aspecto fragmentário, este paradigma está inscrito dentro de uma lógica determinista, derivado da Física Mecânica, em que: uma causa produz necessariamente uma consequência, dentro de uma ordem pré-estabelecida.
Assim para solucionar os problemas, precisamos, antes de superar o paradigma atual, precisamos de um novo paradigma, em que, conceba o ser humano e a natureza em sua totalidade, sem sobrepor o todo às partes nem as partes ao todo; que rompa com a lógica determinista e linear; que perceba o fenômeno, ao mesmo tempo, complementar/concorrente/antagônica; e religue o sujeito pensante (ego cogitans) e a coisa entendida (res extensa). Se assim não for, cairemos novamente nos erros clássicos da modernidade que propôs a salvação ora pela promessa da ciência, esta que foi desmentida pelas bombas de Hiroshima e Nagasaki, pela destruição do meio-ambiente, pela má qualidade de vida da população; ora pela promessa econômica, que também fora desmentida pelas suas duas vertentes: o fim do socialismo real e a falência do capitalismo, que gera, a cada ano, um numero maior de vitimas.

Bibliografia

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Tradução: Eliane Lisboa. Porto Alegre: Sulina, 2006.

_____________. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Tradução: Catarina Eleonora F. da Silva, Jeanne Sawaya. 2ª. Edição. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000.

_____________.em: MORIN, Edgar; NAÏR, Sami. Uma Política de Civilização. Tradução: Armando Pereira da Silva. Coleção: Economia e Política. Lisboa – Pt: Instituto Piaget, 1997.