Pesquisar neste blog

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Nos braços de Deus

Wilson Horvath




Eu acordei devido ao frio intenso daquela tarde ensolarada de verão; meus pés estavam gelados, minhas mãos roxas; todo o meu corpo tremia. Eu sentia a friagem perfurar os meus ossos como se fosse uma broca muito fina e lenta. Abracei-me e comecei a caminhar sem direção a fim de esquentar-me. Então, dei conta que estava em um bosque; o lugar era diferente, mas não me era estranho.
E recordei do que havia ocorrido antes... Eu suicidei com um tiro, na véspera de Natal. Passei a língua no céu da boca e percebi o furo causado pela bala. Do ferimento minava sangue constantemente.
Eu fui tomado por um grande desespero e comecei a proferi tapas e socos contra a minha cabeça... O mundo começou a rodar, minha vista escureceu e fui arremessado no chão. E permaneci lá por algum tempo, chorando feito um louco.
─ O que eu fiz? Por quê? Por que escolhi morrer dessa maneira? Deus!? Ó Deus! Ajude-me!
Neste momento, sinto meu ombro sendo tocado e ouço uma voz chamando-me:
─ Michael...
Eu levanto os olhos e vejo o vulto de mulher, em minha frente. Ela falou algumas palavras, mas, não consegui entender. Eu só sentia frio congelar o meu corpo, somado ao gosto terrível de sangue, que parte escorria pela minha boca e o restante que permanecia me provocava ânsia de vomito.
Ela parou de falar, estendeu suas mãos... puxou-me contra o seu corpo, envolveu-me fortemente em seus braços e beijou minha boca. Enquanto beijava, ela sugou o sangue e passando a língua no ferimento, o fez cicatrizar. Depois, ela soprou dentro de minhas narinas. À medida que seu hálito entrava, meu corpo foi recuperando o calor. E quando parou; eu sentia o meu coração bater disparado.
─ Adina...
─ Oi!?
─ Meu nome é Adina...
─ Encantado... Michael. Michael Quilibet.
─ Eu sei. Por toda a eternidade, te espero.
Eu sorri e fiquei olhando para aquela mulher, que com certeza era a mais linda, que já tinha visto. Ela estava nua, sua pele era negra e suave; cabelos longos e enrolados; olhos grandes e irradiantes; nariz pequeno e delicado; boca carnuda e lábios bem vermelhos; seios de pequenos a médios; quadril largo; pernas fortes e longas...
─ Quem é você? Devido a sua beleza, pressuponho que seja um anjo! Estou certo?
─ Um anjo? Talvez! Em verdade, eu sou a melhor forma que Deus encontrou para te dar as boas vindas.
─ Nossa! Eu estou no Céu?
Adina passa ao meu lado, dá um pequeno sorriso, inclinando a cabeça, aponta para frente e diz:
─ Sim e não! O Céu não é um lugar, embora não haja nenhum lugar que não o seja. Mas, eu não conseguirei te explicar, ou melhor, você não entenderá. Por isso, eu devo levá-lo até Deus. E o Céu para ser pleno precisa de você...
Sorri e abanei a cabeça, desconcordando.
─ De mim? Será que você não se enganou?
Adina deu alguns passos a minha frente, deixando um perfume irresistível no ar. Eu fiquei parado, com o cheiro exalado de seu corpo impregnado em minhas narinas; observando a perfeição de suas curvas e encantado por seu rebolado.
Eu corri em sua direção, puxei o seu braço, segurei-a pela cintura e a beijei loucamente. Sugava o gosto de seu corpo e aspirava incessantemente ao seu cheiro; rasguei minhas roupas e as joguei no chão, essas incendiaram e viraram cinzas. Fizemos sexo como dois animais rolando na grama, gemendo, arranhando... Tive um orgasmo intenso, pleno, todo o meu ser participou desse momento.
Adina ofereceu-me um cigarro, o acendi, dei uma bela tragada e soltei a fumaça lentamente, divagando sobre o que tinha acontecido. Adina sentou ao meu lado, eu a abracei e a beijei por algum tempo. Depois, ela levantou e chamou-me:
─ Vamos? Deus está ansioso para te ver.
A fala de Adina deixou-me consternado. Foi como se ela jogasse um balde de água fria, depois daquele momento mágico.
─ Eu não quero vê-Lo. Eu O odeio. Preferia que Ele não existisse, mas como existe nunca desejo encontrá-Lo.
─ Bobinho! Você odeia Deus ou a imagem que te passaram? E se Deus for totalmente diferente dessa imagem ou da que você construiu a partir das narrativas que ouviu? E se Deus for bom? Muito bom...
─ Bom? Bom, Ele não é! Ele me abandonou... desamparou a humanidade inteira. Deus só quer o nosso sacrifício. Se Ele é bom, então explique o porquê Ele teve a pachorra de pedir a Abrão o sacrifício de seu filho único, Isaque... E por que há tantas...?
─ Descanse Michael. Você deve e precisa encontrar com Deus. Mas... podemos deixar para depois. Afinal, nós temos a eternidade toda a nosso favor. E Deus, embora, querendo o encontro, tem paciência de sobra para esperar a sua decisão.
Adina mostrou-me uma rede armada em um Abacateiro e em um Ipê-amarelo, repleto de flores. Não demorei muito para pegar no sono e sonhar com aquela magnifica mulher. Porém, acordei assustado e suando frio. Tive pesadelos com os últimos anos de vida até o meu suicídio.
Eu não vivia de verdade, mas rastejava no tempo. Minha vida foi uma busca incessante pela felicidade, mas morri sem saber o que ela é, ao contrário, só tive dor, sofrimento e decepção. A felicidade, para mim, estava projetada no futuro ou em algo. Assim, sempre trabalhei duro para consegui-la, mas quando atingia o meu objetivo, esse não me satisfazia, então, projetava a felicidade novamente.
Primeiro, acreditei que seria feliz ao graduar-me; depois a pós... Cobicei um trabalho em uma multinacional; a diretoria; a gerência; meu próprio negócio...
A felicidade era apresentada a mim nas propagandas da TV. Ela tinha um preço e poderia ser comprada. Assim, por exemplo, todo ano, trocava de carro. Então, percebi que o comprava para deixa-lo parado no estacionamento, pois não tinha tempo para dele usufruir. E nos poucos momentos que o usava, geralmente, no caminho de ida ou de volta do trabalho, estava preso em um transito infernal.
Eu fiquei anos juntando dinheiro e fazendo planos para comprar uma casa beira-mar. Depois de comprada, lá ia, uma ou duas vezes por ano. E no último ano, não fui nem uma vez, por falta de vontade e, principalmente, por não ter companhia. E por esse mesmo motivo, não viajei mais, com exceção de viagens a trabalho.
Não tinha amigos, apenas me relacionava com pessoas, que eu acreditava que poderiam trazer-me algum benefício e essas, imagino, estabeleciam a mesma relação comigo. Não sabia o telefone de quase ninguém de minha família e com a maioria deles, não conversava há mais de dez anos.
Eu casei duas vezes. A primeira foi por dinheiro, casei com uma mulher, que acreditei que me daria bens materiais e oportunidades de crescimento profissional. Ao casar, joguei de escanteio a oportunidade ou a possibilidade de viver um grande amor com a mulher, que era apaixonado desde criança, em troca de algumas moedas.
A segunda vez, eu fiz o movimento inverso, casei com a mulher que acreditei poder comprar. Uma mulher, assim como eu, gananciosa, sem caráter nem escrúpulos, mas bonita, elegante, inteligente e bem mais nova.
O meu erro foi achar que poderia comprar o amor de alguém, pura ilusão! Nós podemos comprar a presença de alguém, mas não sua companhia. Ela pode estar na mesma cama, mas essa se torna sinônimo do inferno, e não apenas para quem se vende, mas para ambos. Eu podia ver em seus olhos o desprezo e ódio que ela nutria por mim, ao transarmos. Ela sempre me tratava de forma ríspida, com exceção, é claro, de quando queria algo, mas voltava ao seu normal, após alcançar o que desejara ou ao perceber que não conseguiria seu objeto de desejo e até mesmo quando estava demorando muito.
E não há limites para o valor de troca, ninguém se dá por satisfeito, sempre quer mais, assim como um cardume de piranhas atrás de sangue. Ela, ao menos, foi útil para eu perceber o porquê minha primeira esposa pediu o divorcio.
Minha última esposa, ao menos, me deu uma filha, uma linda menina. Porém, quase não a via, pois estava sempre ocupado com os negócios e não havia vantagens econômicas em estar com ela. E também, eu não sabia estar com alguém gratuitamente.
Meu último ano de vida foi solitário; não comprei mais nenhum bem material para mim. Dei praticamente tudo o que tinha para minha esposa. Minha vida se resumiu em trabalhar e trabalhar. E, ao estar em casa, eu estava exausto, mas não tinha sono. Então, para dormir me drogava com álcool e/ou tranquilizantes.
Eu, porém, com uma vida infeliz a encarava como uma boa vida. E acreditava que tinha conseguido aquilo que todas as pessoas lutam para ter. Se alguém me perguntasse, diria que o meu estilo de vida era o correto e o único que alguém poderia almejar. E odiava aqueles que pensavam contrário de mim.
Eu, também, odiava qualquer proposta política que visasse à melhoria da vida das pessoas, em especial, dos mais pobres. Era meu inimigo pessoal qualquer político que lutava por melhorias sociais. Para mim, pobre nasceu para limpar privada, servir cafezinho, levantar parede... e nada mais.
Esse era eu: um solitário babaca arrogante dono da verdade. Mas, nunca, tinha pensando em me matar. Algumas vezes, eu cheguei a cogitar se não era melhor eu estar morto. Agora, tirar a minha própria vida, nunca, pensei.
Antes de suicidar, comprei presentes para a minha esposa e minha filha e as levei na casa de minha sogra. Lá, eles estavam em festa e fazendo os preparativos para o natal. Deixe-as e fui embora. Meu cunhado pediu para eu ficar e jantar com eles, mas inventei uma desculpa, falei que tinha muito trabalho para fazer.
Em minha casa, fiquei pensando o como era triste a noite natalina. E na merda que era a nossa vida, um sistema de troca, um toma cá dá lá. Levantei, destranquei a gaveta do criado mudo, peguei minha arma, a coloquei na boca, puxei o gatilho... e fui acordar aqui.
Minha vida fora inútil e sem graça. Não foi uma vida que valeu a pena ser vivida. Talvez, não tenha vivido de verdade. Assim, não suicidei, apenas coloquei um ponto final em algo que poderia ser qualquer coisa, menos a vida.
Eu levanto da rede e vou em direção a Adina, que estava pondo uma panela em uma pedra que se assemelhava a uma mesa de jantar.
─ Dormiu bem?
─ Sim, mas acordei com uns pesadelos.
─ Não se preocupe; eles vão desaparecer...
Adina continuava nua e linda, mas senti muita vergonha de estar sem minhas roupas.
─ Adina, eu não sei o que aconteceu com minhas roupas, depois de tira-las, elas viraram cinzas. Será que você não consegue algumas para mim?
─ Desculpe-me, querido! Mas, aqui, nós não temos roupas. Tirá-las é um dos primeiros passos para vivermos o Céu. O ser humano teve a necessidade de usa-las, ao pecar. Como nós não pecamos mais, logo, não as usamos. Simples, não?
─ Não pecamos!? Mas, nós fizemos...?
─ Amor! E o amor é divino. E tudo o que é divino não pode ser pecado!
─ Divino?
─ Sim, divino! O desejo sexual ou o amor Eros é uma das formas mais lindas do amor. Na Terra, ele é o responsável pela continuidade da vida, mas não só. Por meio dele, o ser humano, em um movimento transcendente, sai de si e vai ao encontro do outro, que o atrai, em um movimento imanente. Logo, ele é uma forma de comunhão, de ligação intima entre dois seres.
─ Então, quer dizer que nós dois estamos em comunhão?
─ Todo o ser humano está em comunhão com o outro. O sexo é uma forma de selar a comunhão.
Eu nunca tinha encarado a relação sexual como um ato de comunhão. O sexo era, para mim, ora uma moeda de troca ora uma forma de descarregar a tensão do dia-a-dia. Talvez, seja por isso que eu o encarava como algo sujo e pecaminoso.
Comum união...? Será que eu tenha perdido a minha virgindade, somente agora, com Adina?
─ Interessante. Mas, ainda gostaria de estar com roupas.
Adina sorriu e levantou a tapa da panela. E fui tomado pelo cheiro de escondidinho de carne seca.
─ Você deve estar com fome?
Nós comemos e Adina contou-me sobre sua vida. Ela era fotografa e trabalhava em uma organização, que procura denunciar e conscientizar as pessoas sobre os crimes ambientais. E que fora morta por pistoleiros, ao tentar cobrir um esquema de tráfico e contrabando de animais da fauna brasileira ameaçados de extinção.
Eu fiquei um pouco envergonhado, pois nunca tinha feito nada para contribuir com algo, ao contrário... e já tinha comprado alguns produtos que usavam como matéria prima parte desses animais.
─ Minha mãe fazia escondidinho para nós.
─ Eu sei, a receita é de sua família.
─ Você aprendeu com mamãe? Eu estou com tantas saudades dela. Será que depois, eu posso vê-la?
─ É claro que pode! Mas, não aprendi a receita com sua mãe, mas com sua filha.
─ Com minha filha!?
─ Sim... Sua filha, além de boa cozinheira, é muito bonita.
─ Depois, você me ensina como eu posso ver a vida na Terra.
─ Eu não a encontrei na Terra, mas aqui na eternidade.
─ O que você disse? Minha filha morreu? O que aconteceu com ela?
─ Calma, Michael.
─ Calma!
─ Ela saiu do tempo bem depois de você. Nós não estamos mais no tempo e espaço. Nós estamos na eternidade. Logo, estamos fora do tempo. Assim, não há começo, meio e fim...
─ Eu não quero saber de eternidade. Cadê minha filha? Eu quero minha filha...
─ Pai!
Eu sinto as batidas do coração; meu corpo estremece. Olho para trás e vejo minha filha.
Ela estava tão linda... Tinha crescido, mas continuava igualzinha quando criança. Era como se o tempo não tivesse passado, ela apenas aumentou de tamanho, mas mantinha o mesmo rostinho de anjinho...
─ Oi papai.
Eu tentei falar, mas minha voz não saiu. Eu comecei a chorar e fui acompanhado por minha filha. Abraçamo-nos e juntos choramos.
─ Filha... Como você está linda!
─ Pai! Meu papai!
─ Ai! Filha!
─ Eu senti tantas saudades. Por quê? Pai! Por que o senhor me abandonou?
─ Eu não sei, filha.
─ Eu queria tanto que o senhor estivesse comigo... não tinha ninguém para me proteger... Eu nunca festejei o dia dos pais. Ao formar-me, onde estava o meu pai?... Eu não dancei, pai! Fiquei a valsa toda chorando... O senhor nunca pegou meus filhos. Pai... pai! Por quê? Por que o senhor foi se matar? O senhor não pensou em mim...?
Ela desferiu alguns socos contra o meu peito. E enveredou a chorar e soluçar.
Eu sempre ouvi dizer que o inferno era um lugar terrível. Com labaredas de fogo e o diabo nos espetando com o seu garfo. Mas, nada, exatamente nada se compara a dor que senti, naquele momento. O inferno é pior do que dizem... foi como se meu corpo incendiasse e fosse apunhalado por golpes incessantes. A única diferença do que dizem é que, ao invés de ser torturado por um ser horrível; eu estava abraçado com uma linda anjinha.
Eu não sei por quanto tempo ficamos ali parados, abraçados e chorando. Só sei que fui despertado ou retirado do inferno por um doce beijo de minha filha, que depois me deu mais alguns.
─ Que bom te ver, papai.
─ Eu, eu...
─ Desculpa-me pelo que falei. Acho que estava engasgado e foi preciso por para fora.
─ Filha, filha linda. Eu que devo pedir desculpas.
─ Eu já te perdoei. Papai!
─ Obrigado.
Ela soltou de meus braços e cumprimentou Adina com um beijo.
─ Agora, eu estou pronta para viver o Céu. Papai, vamos!? Para o Céu ser pleno precisa que o senhor esteja vivendo-o.
Eu soltei um riso, minha filha falou a mesma coisa que Adina. Eu? Uma criatura tão desprezível... O que poderia contribuir na plenitude do Céu? Mas, como negar um pedido de minha filha?
─ Vamos, filha!
Minha filha segurou em minha mão direita e Adina a esquerda. Minha filha olhou para Adina e depois para mim e disse:
─ Papai. O senhor quer encontrar Deus?
─ Sim. É claro.
Então, pessoas começaram a surgir perto de nós, infinitamente. Vi primeiramente os que eu conhecia, desde a infância até os meus últimos dias. E todos passavam e nos cumprimentavam. Eles olhavam diretamente em meus olhos. De alguns, procurei desviar o olhar, porém não era possível, por mais que esquivasse, não conseguia deixar de olhar diretamente em seus olhos e também não era possível piscar ou fechar os olhos.
Minha filha puxou a minha mão e disse:
─ Lá está Deus. Nós precisamos ir agora. O encontro com Ele é algo pessoal.
─ Filha...
Adina, soltando a minha mão, disse:
─ Não se preocupe! Deus é bom... Muito bom!
Ambas saíram e foram em direção a Deus, Ele as beijou e veio em minha direção. Deus me era extremamente familiar. Ele lembrava, ao mesmo tempo, meu avô materno e meu pai. Ele era alto, com traços fortes; pele bronzeada; rosto largo, maxilar quadrado; olhos grandes e escuros; boca grande; barba rala por fazer, porém arrumada; os cabelos nem curtos nem longos e esbranquiçados...
─ Michael... Michael Quilibet! Vem cá, meu filho, me dê um abraço.
O encontro com Deus era algo tenebroso para mim. Eu esperava encontra-Lo, em uma espécie de tribunal inquisitório. Ele estaria com cara de mau e com um livro, em mãos, no qual estariam anotadas todas as minhas falhas e minhas poucas virtudes, caso houvesse alguma. O diabo apresentaria as acusações e a Virgem Maria seria minha advogada. Então, Deus faria uma análise entre as teses de acusação e de defesa, e decidiria a partir dos autos do processo se eu ganharia a salvação ou a punição eterna.
Ele, porém, estava parado, em minha frente, sorrindo, de braços abertos, pedindo um abraço. Eu quis ir ao seu encontro, mas minhas pernas não obedeceram ao meu comando e permaneci imóvel. Então, Ele veio ao meu encontro, me abraçou, beijou-me e disse:
─ Meu filho! Que bom tê-lo em meus braços.
Eu, nos braços de Deus, me senti uma criança. Pude experimentar o seu aconchego, calor, carinho.
─ Deus...
─ Por favor, chame-me de Pai e se já conseguir, pode dizer: Papaizinho Queridinho.
─ Papaizinho...
─ Olá Michael, meu filhinho.
─ Deus...?
─ Pá...
─ Papaizinho, eu tenho um monte de perguntas para fazer.
─ Que Bom! Pois, tenho um monte de respostas para te dar. O que você quer perguntar?
─ Eu vou para o inferno?
Deus dá uma bela risada e abraça-me mais forte ainda.
─ Menino! Vocês ainda acreditam na churrasqueirinha eterna? Um pai, que ama o seu filho, ficaria feliz em vê-lo sofrer? Ou faria de tudo para evitar o seu sofrimento. E, até mesmo, se fosse possível, sofreria no lugar de seu filho?
─ Eu faria de tudo para ver a minha filha feliz. A sua felicidade é com certeza mais importante que a minha. Eu fiz muitas coisas para deixa-la triste. Mas, juro que não foi a minha intenção. Se pudesse faria tudo diferente.
─ E por que o meu amor seria menor que o seu? Que espécie de pai sou Eu? Por que Eu condenaria o ser humano que criei?
─ Mas, o Senhor, além de nos amar, não é justo? E o Senhor não nos deu todas as oportunidades de conversão, logo, se alguém vai para o inferno é porque ela não se arrependeu, enquanto foi tempo?
─ Meu filhinho! Você não está limitando o meu amor? A lógica que você está seguindo é a seguinte: Eu sou bom, infinitamente amoroso, enquanto vocês estão vivos, na Terra. E a partir do momento que morrem, Eu deixo de ser bom. Mas, como posso obedecer a essa lógica se Eu estou para além do tempo? Eu não sou eterno? Logo, o meu amor também não é eterno? E Eu sou o mesmo, e sempre. Então, não há mudanças nem em meu Ser e, muito menos, em meu amor. Assim, se sou bom uma vez é porque o sou para todo o sempre. Por que, Eu permitiria que vocês ao cometerem erros, no tempo, que podem ser grandes e enormes, mas são limitados pelo tempo e espaço; sofressem uma condenação fora do tempo e do espaço, para todo o sempre e ilimitada? A minha condenação não seria infinitamente maior que os seus erros? E, nesse caso, não seria Eu o pior de todos os carrascos?
─ Pai, não fui eu quem criou essa explicação, mas sim, as religiões. Eu cresci ouvindo essa versão.
Deus sorri, passa a mão em sua cabeça, me solta de seus braços e começa a caminhar pelo Jardim.
─ Vamos andar um pouco a fim de ventilar as ideias.
─ Claro!
─ Isso que você fala é verdade. Eu sou o maior caluniado da história da humanidade. Parece que há quase um consenso entre os religiosos desejarem que Eu seja mal, em nome de uma possível justiça, com leis e castigos não estabelecidos por mim, mas criados eles próprios.
─ Deus-Pai, eu não entendo muito sobre religião. Mas será que eles não passaram essa ideia a fim de que a humanidade não pecasse. Assim, as pessoas ficariam com medo do inferno e seguiria os seus mandamentos?
─ Mandamentos de quem? Meus ou deles? Meu único mandamento é o amor. E ademais o medo não impede que uma pessoa faça maldades. Ao contrário, em meu nome, o ser humano fez todos os tipos de barbárie. Pessoas crentes e tementes, roubaram, extorquiram, assassinaram, guerrilharam, etc.
─ Talvez, seja por isso que há tantas pessoas que se recusam a acreditar no Senhor.
─ Pode ser! Mas também não foram somente os crentes que me caluniaram; os ateus também. Eu já fui chamado de tudo, desde o grande superego à ideia ideológica última, e essa, além de tudo, tinha que estar a serviço da manutenção do sistema econômico vigente! Eu falei para o Sartre, já que ele não acreditava nem em mim nem no inferno; por que ele também não escreveu uma peça sobre o Céu? Era só ele pegar a peça Entre Quatro Paredes, colocar os personagens no Céu, fazer as devidas adaptações. E dizer: “O Céu são os outros”.
─ Não entendi, infelizmente, desconheço essa peça. Eu nunca ia ao teatro.
─ É uma excelente peça. Sartre foi um dos grandes gênios da humanidade. Não se preocupe, ela está em cartaz. Para vê-la, basta querer.
─ Deus...
─ Pai!
─ Meu pai! Eu não sei se entendi, mas se compreendi, não concordo. O Senhor está querendo dizer que eu poderia ter feito qualquer coisa, por pior que seja. E ainda continuaria me amando?
Deus parou e sentou em uma pedra e apontou para outra, indicando para eu sentar.
─ Voltemos, então, ao mesmo assunto. Teria alguma coisa que a sua filha poderia ter feito, que diminuiria o seu amor para com ela?
─ Eu acho que não. Embora, eu não seja um exemplo de bom pai.
─ Vamos imaginar algo que não aconteceu. Supondo que você não tivesse sido tão fraco e tenha acompanhado o crescimento de sua filha. E em sua adolescência, ela tenha se envolvido com as drogas e se tornado viciada, ficando à mercê de traficantes. O que você faria? Você a abandonaria? Ou procuraria tirá-la dessa vida?
─ Minha filha se envolveu com drogas?
─ Não, graças a sua ex-esposa, Rute, que agiu enquanto foi tempo. Mas, quero saber de você. Você ficaria contente com aquela situação? E o que faria?
─ É claro que eu não ficaria contente e faria de tudo para tirá-la de lá. E procuraria clinicas para o tratamento e até enfrentaria os traficantes para tirá-la de seu domínio.
─ E por que comigo seria diferente?
─ Mas, eu poderia matar ou encomendar a morte dos traficantes. E o Senhor não faria isso, não é?
─ É claro que não! Os pais dos traficantes, que também os amam, fariam isso?
─ Suponho que não!
─ Então...!?
─ Então, ninguém precisava ser bom. A pessoa pode fazer todos os tipos de maldade, pois no final, ela receberá o mesmo que uma pessoa que sempre se esforçou para ser bom.
─ É isso é o meu conceito de justiça, dar por igual nem mais nem menos a cada um de meus filhos e filhas.
─ A sua justiça para mim é uma grande injustiça. Se eu soubesse disso, teria sido pior do que fui. E acredito que não só eu, mas toda a humanidade.
─ E o que de pior você teria feito?
─ Não sei. Teria matado, roubado...
─ Bom, você, mesmo, acreditando no inferno, embora, não dando importância a ele, matou a pessoa mais importante do mundo, você próprio! Agora, não sei o que você entende por roubo; se roubar significa tirar algo de outrem; você explorou os seus funcionários, tirou deles, além de dinheiro, a força de trabalho, saúde e vitalidade. Você casou com Noemi por causa de dinheiro e procurou tirar dela tudo o que ela podia te dar. Você não foi igual àqueles, que você julga, serem assassinos e ladrões?
─ Uh! Pode até ser, mas não fiz nada contra a lei, ao contrário.
─ Esse é um ponto interessante de seus argumentos. Você e todas as outras pessoas pecaram, dentro de um sistema de pensamento que os condicionavam ao erro, fazendo-os acreditar que o erro era ora sinônimo de felicidade ora traria a felicidade. O erro poderia ter amparo legal, como foi o seu caso ou estar presente na cultura de um grupo. Assim, como disse um grande filósofo, Pascal: “Todos os homens buscam a felicidade. E não há exceção. Independentemente dos diversos meios que empregam, o fim é o mesmo. O que leva um homem a lançar-se à guerra e outros a evitá-la é o mesmo desejo, embora revestido de visões diferentes. O desejo só dá o último passo com este fim. É isto que motiva as ações de todos os homens, mesmo dos que tiram a própria vida”.
─ Eu fiz tantas coisas ruins, chegando ao suicídio, porque acreditei que isso me traria a felicidade?
─ Não foi?
─ Foi! Eu atirei em mim, pois não aguentava mais minha vida, essa não tinha mais sentido. Para mim, qualquer coisa era melhor do que aquilo até mesmo o inferno ou o fim de tudo.
─ Entende agora o porquê minha justiça não é condenativa, mas baseada no perdão. O Céu é diferente do modelo de organização, que a humanidade estabeleceu na Terra. Sendo diferente, ele começa com o perdão. Os gregos, dos séculos VI a V a.C., fizeram algo parecido; eles, ao estabelecer a democracia, perdoaram as dividas e os erros, que as pessoas cometeram, no período anterior, marcado pela tirania. As pessoas tendem a se comportarem segundo o que é estabelecido pelo seu sistema social. Mudando o sistema, também, muda a ação e o pensamento das pessoas. O Céu é um lugar de igualdade, onde ninguém tem nem mais nem mesmo que o outro, logo, espera que as pessoas mudem também.
─ E se alguém não quiser mudar?
─ Ela tem liberdade de escolha. Eu não posso obrigá-la a tomar determinada decisão. Ela é livre, e é sempre. Se ela optar por não viver o Céu, ela viverá o inferno.
Eu coloco as mãos na cabeça, olho para Deus e digo:
─ Voltamos novamente para a estaca zero.
Deus sorri, puxa-me para perto de si, passa a mão na minha cabeça e diz:
─ Menino, menino! O inferno existe como possibilidade escatológica, mas está vazio. Tai um dogma que a humanidade deveria proclamar; ela que adora a criar dogmas.
─ Meu Deus-Pai! Eu estou começando a achar que mesmo aqui; para crer, não conseguirei compreender.
Deus dá uma bela e gostosa risada.
─ Vamos pensar um pouco: O Céu para ser o Céu tem que ser pleno, pois se faltar uma só coisa por menor que ela seja já não é mais Céu, pois ele deixou de ser pleno. Concorda?
─ Uh!
─ Uh, o que?
─ Concordo.
─ Agora, diga-me com quem você gostaria de estar no Céu?
─ Com minha filha e com minha mãe, especialmente.
─ E se uma delas não tiver com você no Céu, o Céu seria Céu para você, ou seja, ele seria pleno?
─ Não! Logo, você também não estaria no Céu, pois você não estaria vivendo a plenitude.
─ Isso é verdade!
─ E Eu também estaria muito triste com a condenação de alguém, pois também a amo.
─ Claro! O Senhor é nosso Papaizinho Queridinho.
─ Você está começando a entender. E Eu, além do mais, seria um incompetente, pois não fui capaz de salvar um de meus filhos e filhas. E se teve um só, que não pude salvar, logo, Eu não sou perfeito e se não são perfeito Eu não sou Deus.
─ Mas, Deus é perfeito.
─ Então, Eu farei de tudo para tirar a pessoa do inferno e trazê-la para o Céu. Esse que somente será pleno, após a volta de todos os meus filhinhos e filhinhas.
─ Entendi o porquê que Adina e minha filha disseram que o Céu somente seria pleno comigo.
─ E ambas foram a melhor forma que Eu encontrei para tirá-lo do inferno e trazê-lo a mim.
─ Eu estava no inferno?
─ No Céu que não era.
─ O que é o Céu? Eu já estou nele?
─ Quase! O Céu não é um lugar propriamente dito, mas não há nenhum local que não o seja...
─ Adina me falou isso.
─ O Céu é um estado de espirito, em que todas as pessoas convivem amorosamente umas com as outras, formando assim, um só corpo e um só espírito. O Corpo Místico. No Céu, você está, ao mesmo tempo, com todas as pessoas e Comigo.
─ Até com os meus inimigos?
─ É claro! Mas com uma diferença básica, eles não serão mais seus inimigos, e sim, seus amigos.
─ Ah! Mas, isso para mim nunca foi o problema. Eu sempre convivi com quem odiava, e fazia com que eles acreditassem que gostava deles.
─ Só que você conviverá com eles eternamente e sempre estarão olhando um nos olhos do outro. Por isso, não tem com esconder os verdadeiros sentimentos. Você deve torná-los seus amigos e vice-versa, caso não, o Céu não será pleno para ambos, pois ter que conviver com quem não gostamos é um inferno. Para viver o Céu, é preciso se arrepender sincera e realmente dos nossos erros; desculpar todas as pessoas, das quais guardamos magoas; e pedir desculpas a todos àqueles com os quais falhamos.
─ Isso é difícil.
─ Sim muito. Esse processo é o que Eu chamo de purgatório, ou seja, é um estágio, em que purgamos. Simbolicamente, podemos dizer que é como se nosso corpo e alma queimassem, em um exame de consciência profundo a fim de conquistarmos o Paraíso.
─ E se eu não conseguir?
─ Eu o ajudarei... Adina também pensou que nunca conseguiria perdoar e amar pessoas iguais a você, que para ela, e com muita razão, foram os responsáveis tanto pela extinção de várias espécies de animais como pela sua morte. Sua filha tinha uma enorme magoa de você por tê-la abandonada e acreditava que nunca conseguiria perdoá-lo. E ambas não conseguiram? Elas purgaram em sua presença; doravante, elas o amam.
Deus se levantou, acenou para que eu levantasse, me deu um grande abraço e um beijo.
─ Vá agora, meu filhinho. Vá conviver com os demais. Faça um belo e sincero movimento de conversão. Não se preocupe. Encontramo-nos, depois. Se precisar é só me chamar. Nós ainda temos algumas questões pendentes para tratarmos e Eu tenho uma missão que só você pode me ajudar.
─ Eu?
─ Sim, só você!
Deus saiu entre a multidão. Ele conversa, abraçava e beijava a todos.
E eu dei de cara com minha primeira esposa. Ela estava linda; cabelo muito preto e longo; pele branca; olhos bem verdes; seios fartos; pernas grossas...
─ Oi Noemi.
─ Olá Michael.
─ Eu tenho que te pedir desculpas.
─ Do que?
─ De ter te roubado e enganado?
─ Ai Michael! É tão difícil perdoar, os ressentimentos ficam roendo a nossa alma e destruindo o nosso corpo. Às vezes, nós esquecemos até dos fatos que proporcionaram as magoas e ficamos só com a raiva e a alimentamos cada vez mais. Eu te perdoo, Michael. E te peço o mesmo.
─ Não há o que te perdoar. Você nunca fez nada de mal para mim.
─ Eu fui corresponsável pelo seu egoísmo. Fui eu quem instigou naquele menino o gosto desenfreado pelo dinheiro e por tudo o que ele pode comprar. Talvez, se eu fosse menos materialista, você não se tornaria o que foi.
─ Eu nunca pensei nisso. Talvez, não seja você a responsável; o egoísmo já estava em mim. Ele foi apenas despertado a partir do convívio com você e seu padrão de vida.
─ Pode ser! Mas, nossa identidade se define por nossas atitudes e ações... Você me perdoa?
─ Eu já disse, não há o que perdoar.
Noemi me deu um delicioso abraço, ela estava com o corpo tão quentinho e macio. Ela virou e beijou a minha boca. Beijamos, por um longo tempo.
─ Vamos lembrar os velhos tempos?
─ Será ótimo!
Nós fizemos um amor apaixonado. Um amor que nunca havíamos feito, cheio de trocas de afetos. E, o que é principal, amor por amor, sem esperar nada em troca.
Nós conversamos por um longo período ora abraçados ora um fazendo carinho no outro; demos várias rizadas de nossas gafes. Despedimo-nos, como dois namorados recém-apaixonados, com vários abraços e beijos.
─ Nós estamos unidos para todo o sempre.
─ Em comunhão eterna.
─ Agora, nós devemos continuar o nosso processo de purgação.
─ Que purgação mais gostosa é essa!
─ Nos encontramos.
─ Sempre!
Eu continuei a caminhar pelo Jardim e encontrei meu antigo funcionário Abel, com quem trabalhei nos meus últimos dez de vida.
─ Dr. Quilibet!
─ Olá Abel, que bom encontra-lo.
─ O senhor não vai me pedir um café? Eu até sei que o senhor gosta de café descafeínado, espumoso e sem açúcar.
─ Em verdade, eu sempre odiei esse café. Só o tomava por pura frescura e para dar um ar de superioridade. Café sem cafeína... tinha gosto de nada.
─ Dr. Quilibet, eu tenho que pedir desculpas para o senhor, pois, na maioria das vezes, quando não tinha ninguém vendo, eu cuspia na garrafa de café.
─ Será que era por isso que ele tinha aquele gosto horrível?
Abel olhou para mim assustado. Eu, então, comecei a sorrir e ele me acompanhou na gargalhada.
─ Abel. Eu que devo te pedir desculpas, por toda a humilhação, o tratava pior do que a um escravo. Por favor, desculpe-me?
─ O senhor me tratava pior do que um cachorro. Ensaiei várias vezes te dar umas boas porradas... Nunca, encontrei uma pessoa tão arrogante e soberba como o senhor.
─ Eu sei disso! Abel, por favor, perdoe-me?
─ Dr. Quilibet...
─ Abel, não me chame mais de doutor nem pelo meu sobrenome, chame-me pelo meu nome, Michael.
─ Certo! Michael. O senhor sabe o porquê não pedi demissão?
─ Você precisava do emprego e do salário?
─ Não! Eu poderia ter procurado outro emprego e o salário não era tão bom assim. Não pedi demissão, pois o invejava; o senhor era para mim, o modelo de ser humano. O que me causava mais ódio do senhor era que eu queria fazer o mesmo, mas não podia fazê-lo.
─ Que lixo de modelo de ser humano que nós seguimos!
─ Sabe o que é mais me dói? Dr. Qui... Michael, eu relacionava com minha esposa da mesma forma que o senhor me tratava. Descarregava nela toda a humilhação que sofria na empresa; e procurava fazer dela um ser inferior a mim. E isso me dava prazer e fazia com que me sentisse superior.
─ Minha prepotência também era para esconder minha fraqueza. Eu não sei explicar bem, mas tinha medo e inveja dos funcionários. Ao vê-los reunidos, felizes, contando sobre as festas do fim de semana, eu reportava à minha infância, aos tempos do colégio. Eu era um menino franzino, de poucos amigos, tinha medo dos outros meninos brigarem comigo e sentia ciúmes deles por serem populares, na escola, tanto entre os rapazes e, principalmente, com as meninas. O demônio que me tornei nada mais era do que uma tentativa de fazer com que a imagem daquele menino fraco desaparece...
Eu comecei a chorar após contar isso para Abel. Nunca, havia dito isso para ninguém; esse era o meu segredo mais profundo, por isso procurava esconde-lo de todos, inclusive de mim mesmo.
Abel abraçou-me e comigo chorou.
─ Michael. Será que nós passamos nossa vida inteira lutando para superar nossos medos e traumas de infância? E isso fez com que eliminássemos as virtudes daquela criança boa e alegre que éramos e nos tornássmos um poço de frustrações e maldades, prontos para atacar todos aqueles que estão ao nosso redor?
─ É isso Abel! Para vivermos o Céu... nós devemos deixar as mascaras que criamos e voltar a sermos crianças!
─ Então, o purgatório é o momento em que preparamos para voltar para o pregraud.
─ Ser criança... correr, pular, brincar com todas as pessoas, sem distinção de classe social, cor, sexo... Vamos correr Abel?! Vem vamos voltar a sermos crianças...
Abel e eu começamos a correr pelo Jardim, pulando as pedras e as flores; outras pessoas juntaram a nós, meus amigos de infância, meus colegas de escola, meus primos... Nós brincamos de pega-pega, mãe da rua, salva latinha, queimada. Nós nos desculpamos uns com os outros; desfacemos antigos ressentimentos e divertimos muito; eu não me lembrava do tanto que é bom viver descompromissado, gratuitamente, sem as chatices que criamos para vida adulta. Na brincadeira outras pessoas, que eu conhecia, entraram.
Eu parei de brincar, ao ver minha última esposa, Rute. Ela sorriu e abanou para mim. Rute estava linda, parecia um anjo de cabelos loiros... O que mais me chamou a atenção foram seus olhos. Esses, agora, estavam luminosos, vibrantes e revelavam alegria e amor.
─ Olá coelhinho saltitante.
─ Olá princesa.
─ Você corre bem, poderia ter disputado a São Silvestre.
─ Eu estava correndo para te encontrar.
─ Hum! E eu estava aqui, toda a eternidade, te observando e te esperando.
─ Acho que nós temos que selar nossa união, né?
─ Em comunhão eterna?
─ Para todo o sempre!
─ Mas, antes, nós não devemos pedir desculpas um para o outro?
─ Eu li no regulamento que podemos deixar para depois.
─ Michael! Aqui tem regulamento...?
Nós nos taquemos nos beijos e amassos... E puxa daqui, rola ali, morde acolá... sobe, desce, muda de posição, volta para a mesma posição, agacha, senta, levanta, deita...
─ Rute! Ainda bem que eu morri, caso não, já era...
─ Bobo!
─ Nós deveríamos ter vivido assim.
─ Nós viveríamos o Céu, em vida.
─ Pena que o dinheiro esteve sempre em primeiro lugar.
─ É... por isso é impossível servirmos a dois senhores. Ou se serve a Deus ou ao dinheiro. E nós optamos pelo segundo.
─ Deus é tão bom!
─ Michael!
─ O que! Menina?
─ Eu esqueci. Deus pediu para te dizer que Ele precisa de você para uma missão.
─ Eu vou lá. Encontramos-nos depois?
─ Nós nos esquecemos de pedir perdão.
─ Não precisa, pois já nos perdoamos.
─ Que perdão mais sincero!
─ Beijos, te amo, te amo, te amo!
─ Nos vemos...
─ Para todo o sempre.
Deus estava sentado no Jardim, brincando com as crianças. Ele, a me ver, levantou e veio em minha direção. Algumas crianças ficaram seu no colo, umas subiram em suas costas, e outras ficaram abraçadas em suas pernas, enquanto caminhava.
─ Olá meu filho querido!
─ Olá meu Papaizinho Queridinho!
─ Como foi?
─ Muito bom! Pai, por que a vida na Terra também não é assim?
─ Michael e suas perguntas. Em meus planos, lá deveria ser feito a minha vontade como no Céu. Assim, vocês deveriam viver na Terra como aqui. Porém, vocês foram comer o fruto proibido...
─ Mas, aqui nós podemos fazer sexo, não podemos? Adina disse que sim.
─ Claro que pode! Se não pudesse não seria o Céu, certo? O nome que dei ao Céu, esse que engloba a Terra, é Jardim do Éden. Éden quer dizer: prazeres, delícias. Logo, o Céu é onde se vive todos os prazeres e delícias divinos.
─ Então, o que é o fruto proibido? Qual é a Árvore do Bem e do Mal?
─ Muito simples! O fruto proibido é a propriedade privada. O ser humano vivia feliz na Terra. Porém, a partir do momento em que ele passou a preocupar com a propriedade privada, ele passou a maquinar, a refletir o como poderia se dar bem à custa do mal dos demais. Você conheceu o Rousseau, enquanto brincava. Ele matou a charada do fruto proibido, segundo ele: "O primeiro homem que, depois de cercar um pedaço de terra, atreveu-se a dizer: 'isto é meu' e encontrou gente simples o suficiente para acreditar nele. Ele é o real fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassinatos, quantas misérias e horrores à raça humana poderiam ter sido evitados se alguém diante daquela cerca ou fosso, tivesse gritado para seus companheiros: 'cuidado com este impostor; vocês estarão perdidos se esquecerem que os frutos da terra pertencem a todos e que a terra não pertence a ninguém".
─ Mas, Deus. A propriedade não é fruto do nosso trabalho?
─ Michael, meu filhinho queridinho. É só pensar na propriedade que vocês esquecem que Eu sou seu pai...
─ Desculpe, Papaizinho Queridinho.
─ Quem teve o trabalho de criar a Terra?
─ O Senhor.
─ Então, de quem é a Terra?
─ Hum! Pensando assim, ela é do Senhor.
─ Se é minha; quem cercou um pedaço de terra e disse que era o seu, o que ele fez?
─ Roubou suas terras.
─ Entendeu o que é o fruto proibido?
─ Entendi. Mas e se a pessoa enriqueceu não cercando um pedaço de terra, mas com seu trabalho?
─ Diga-me um que enriqueceu dessa forma?
─ Uai! Eu.
─ De que forma você se enriqueceu?
─ Eu trabalhei, trabalhei, trabalhei até juntar dinheiro para abrir o meu próprio negócio. Comecei com dois funcionários, depois fui expandindo, contratando mais funcionários e enriquecendo.
─ Se você não tivesse contrato os seus funcionários, você teria enriquecido?
─ Não.
─ Então, você enriqueceu graças ao trabalho de seus funcionários?
─ Sim, mas eu também trabalhei. E trabalhava mais que eles todos e ainda tinha que supervisioná-los.
─ Não sei se isso é verdade que você pode até ter trabalhado mais, o que sei é que você também ganhava mais e bem mais que todos eles juntos. E sem eles você teria feito o que fez?
─ Não.
─ Então, você enriqueceu graças ao suor deles?
─ Sim.
─ Você já parou para pensar que você não roubou minhas terras, mas o suor de seus funcionários?
─ Não sei! Mas, quem comprava as máquinas para eles trabalharem era eu.
─ O dinheiro vinha de onde?
─ Do lucro de minha fabrica.
─ Quem gerava lucros?
─ O trabalho de meus funcionários.
─ Esse é o fruto proibido que você comeu.
─ É verdade! Eu pensava que isso era o certo. E agindo assim, estava no caminho do bem.
─ A árvore do bem, que leva ao mal.
─ O que o Senhor falou lembra o socialismo.
─ Não tem nada de socialismo. O que estou dizendo é revelação. Mas, mesmo assim, Eu torci tanto para o socialismo tivesse dado certo. Eu falei para o Marx. Eles tinham tudo para dar certo, se eles não se considerassem os donos únicos da verdade. Os socialistas não gostavam da religião e com razão, pois eles só conheceram uma religião, que era serviçal dos poderosos e enganadora do povo. Porém, eles, ao tentarem destruir uma religião para além da vida, criaram uma nova religião terrena, materialista. Eles fizeram uma leitura dialética do mundo, mas no final, eles caíram na grande metafísica estática do comunismo que na prática, se tornou a ditadura do socialismo real, com seus sacerdotes bem definidos, os membros do Partido Comunista. E novamente, eles comeram o fruto proibido. E o povão mais uma vez, continuou na miséria.
─ O socialismo nem o capitalismo foram de seu agrado?
─ Como algo que gerava desigualdade entre as pessoas poderia ser?
─ E qual o sistema que seria?
─ Um que não houvesse escravos nem senhores ou empregados nem patrões. O ser humano tem capacidade de sobra para criar e recriar múltiplos modelos que garantisse a igualdade e a felicidade entre as pessoas.
─ Eu só não entendi uma coisa. O Senhor torceu para que o socialismo tivesse dado certo? O Senhor não sabia de antemão que ele não daria?
─ Eu sei de tudo! Mas, Eu não jogo dados com a vida do ser humano. O ser humano é livre para decidir e é livre sempre!
─ Como o ser humano pode ser livre se o Senhor sabe o que ele vai fazer? Não há um destino escrito?
─ Não tem nada escrito. O destino é escrito a partir das decisões das pessoas. E o ser humano livre tem infinitas possibilidades de escolha. E Eu as conheço todas e as possíveis interações que se originaria de cada decisão. Mas não determino a sua escolha, essa está sempre vinculada ao livre arbítrio.
─ Meu Querido Papaizinho. Por que o fruto proibido nos cegou tanto? Nós deveríamos ter conhecido a verdade sobre o Céu e sobre o Senhor. Nós, com certeza, viveríamos mais felizes e melhores.
─ Meu filho. Eu nunca abandonei a humanidade, ao contrário, Eu sofri com ela e caminhei ao seu lado. Eu estava em tudo e tudo estava imerso em mim. Eu estava presente em cada pessoa e todo o ser humano era um Templo Sagrado. Assim, não havia uma pessoa sequer que não sabia o que era correto para fazer. Um exemplo: quando um pobre batia a sua porta, você poderia não atendê-lo, e criar um monte de desculpas para ignora-lo e até mesmo critica-lo. Mas, se você parasse e refletisse, você saberia que deveria ajuda-lo. E ninguém precisava dizer isso a você. Não é?
─ É... eu sempre sabia. Tanto é verdade que quando eu achava que isso traria algum beneficio publicitário, fazia questão de ajudar.
─ Muitas pessoas conseguiram superar as ilusões dadas pelo fruto proibido e tornaram suas vidas terrenas um espelho do Céu. Francisco de Assis, Mahatma Gandhi, Santo Dias da Silva, Darcy Ribeiro, Irmã Dorothy, Chico Xavier...
─ E a repressão sexual? Todas as pessoas que conheci, na vida na Terra, achavam que sexo era pecado e contra os seus ensinamentos.
─ A repressão sexual apareceu após o ser humano comer o fruto proibido, ou seja, após o surgimento da propriedade privada. O homem possuidor de terras, para garantir que seus bens ficariam com seus filhos consanguíneos, obrigou a mulher a se tornar somente sua e ter relações sexuais somente com ele. Assim, mulher se tornou propriedade do marido. E o homem possuidor de bens também proibiu que seus filhos fossem homossexuais, como uma medida para garantir a permanência dos bens materiais ao logo de sua descendência. A repressão sexual poderia desaparecer paulatinamente após o fim da propriedade privada e sem um partido controlador do Estado. E se as pessoas fizessem mais amor, talvez, elas não se preocupassem tanto com os bens matérias e com o poder.
─ E a homossexualidade não é pecado?
─ Por que seria, se ela é uma forma de amor? E se alguém é homossexual é porque Eu assim o fiz. E o criei dessa forma, para ele ser feliz.
─ E a família monogâmica é errada?
─ Se duas pessoas se unem por amor e somente por ele, não há nada de errado nisso, ao contrário, elas estão participando da divindade, pelo amor. O errado foi impor isso a todas as pessoas, como modelo único.
─ Eu estou entendendo. Tudo é permitido, desde que é feito por amor.
─ Isso! Você conhece aquele ditado: “Diga com quem tu andas; que direis quem tu és”?
─ Conheço.
─ O mesmo vale em relação a mim, ou seja, “Diga quem é seu Deus; que direis quem tu és”.
─ Se o nosso Deus é um pai de amor, nós também seremos amor?
─ Esse é o Céu!
─ Entendi...
─ Que Bom que você está entendendo, pois tenho uma missão para você. E somente, você pode realiza-la.
─ Qual? Em que posso ajudá-Lo?
─ Sua mãe acabou de morrer. Ela terá muita dificuldade de aceitar-me do jeito que sou. Por isso, quero que você traga-a para mim.
─ Mas, mamãe faleceu bem antes de mim.
─ Michael. Nós estamos fora do tempo. Você não encontrou com sua filha e ela não morreu bem depois de você. Então, aqui não tem mais tempo, não existe o antes nem o depois, mas a eternidade. Ao invés de tempo, há estágios, esse que varia de pessoa para pessoa. O depois pode vir antes e antes depois.
─ E por que mamãe não o aceitaria? Ela era tão religiosa.
─ A fé dela era muito marcada pela doutrina do inferno e de um Deus punitivo. Você que não era uma pessoa muito apegada à fé teve dificuldades; imagine sua mãe?
─ O que eu faço?
─ Diga a ela as coisas que Eu te disse.
─ E se eu não souber argumentar como o Senhor?
─ Não se preocupe. O amor de mãe está além de qualquer argumento.
─ Onde ela está?
─ Michael, não há lugar aqui. Basta querer encontrá-la que você estará com ela.
Mamãe estava sentadinha, olhando para todos os lados a procura de algo ou alguém.
─ Mamãe.
─ Chael! Elzinho! Vem cá meu filho. Eu estava tão triste no hospital, você não vinha me visitar. A dor que sentia em meu corpo nada era perto da dor de minha alma por não tê-lo perto de mim. Queria tanto te dar um beijo de despedida...
Eu abracei mamãe e chorei tanto naquela hora. Esse foi o meu último estágio do purgatório. Como pude ter sido um homem tão ruim? Abandonar a própria mãe no leito de morte? Em lágrimas, falei:
─ Mamãe. Nós vamos ficar juntos, agora. Para todo o sempre.
─ Pare de chorar, menino. Você já é hominho!
─ É verdade, mamãe. Agora é só alegria!
─ Conte-me. O que aconteceu com você? Por que você está aqui.
─ Ai que está o problema, mamãe. E só a senhora para me ajudar. Eu suicidei com o tiro na boca.
─ Meu filho do Céu! Não fala uma coisa dessas. Isso é pecado gravíssimo. Michael! Você parece que não mudou nada, continua a ser aquele menino mimado! Você vai perder a sua alma! Michael, tenho que conversar com Deus.... o tanto que orei por você.
─ Então, mamãe. Eu já conversei com Ele. Ele me perdoa. Mas para tal todo mundo tem que ser perdoado.
─ Até seu pai?
─ Inclusive.
─ E os bandidos?
─ Também. Se eles não se salvarem, eu tô na roça.
─ Roça, menino? Você vai pro inferno! Ai ai! Se você não for para o Céu, como posso ser feliz?
─ Para eu estar no céu, todos têm que ser perdoados!
─ Vamos lá. Deixa que eu converse com Deus.
Deus surge em nossa frente, mamãe beijou-me e fez um sinal para deixa-los a sós...
Eu fiquei pensando como seria a conversa dos dois. Mamãe usaria os mesmos argumentos que Deus usou para me salvar. E ambos conversariam sobre a gratuidade, o amor pleno para salvar toda a humanidade... Eu sinto os meus ombros sendo tocados.
─ Michael vamos?
─ Hoje, você viverá o Céu para todo o sempre. Você estava perdido e voltou para a minha casa. E todas às vezes que um filho que estava perdido volta para a casa do Pai, o Pai dá uma festa. A festa é a forma de meu amor pela humanidade, o Ágape. Amor puro, sem esperar nada em troca, como as relações que ocorrem em uma festa. Hoje é o dia que nasceu a salvação para você e para o mundo.
─ Pai. Antes, só uma perguntinha. Na Bíblia, tem aquela passagem de Abraão e Isaque...
─ Michael, você vai ler Temor e Tremor de Kierkegaard. Você tem que estudar meu filho; depois nós conversamos. Agora, vamos para a festa. Estou com fome. Vamos!
O Céu é maravilhoso. Eu encontrei meu velho parceiro de truco, Samuel. Ele estava enrolando um cigarrão de palha e tomando uma boa cachacinha. E me disse que nós estávamos escalados para jogar a próxima partida contra os nossos adversários eternos, no baralho: Peroza e Bertotto. Augustão e Silvião estavam cuidando da churrasqueira. Valéria preparava uma batida de vinho. Vanessa cuidava do vinagrete. Edilson fazia a caipirinha. Renato, com a mão na perna de uma linda mulher, contava piada. Valdemir, feliz da vida, contava causos. Edivan comanda a precursão do samba. Cida e Edimilson eram os mestres abre-alas. Flavia a rainha da bateria. Are era o destaque da escola de samba. Edson e Francisco filosofavam. Eduardo estava com seu namorado novo... E minha grande paixão de infância estava sentada, em baixo de uma macieira, olhando e sorrindo para mim; seus olhinhos tinham o mesmo brilho de quando a beijei pela primeira vez, as meninas de seus olhos emitiam tantas emoções que pareciam saltar para fora...


α Ω – το 'αλφα και το Ωμέγα