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quarta-feira, 6 de junho de 2012

O mundo de máscaras está no fim?


Wilson Horvath

O que é real e verdadeiro? E o que é mentira e ilusão? Há possibilidades de superação das sombras do cotidiano? Essas perguntas são chaves para impulsionarem o pensamento filosófico e tomaram conta de minha mente na noite anterior; como não conseguia dormir, pensando nelas, resolvi escrever esses rabiscos filosóficos.


Há algum tempo, eu estava caminhando e encontrei um conhecido que também praticava essa atividade física e caminhamos um pouco juntos. Durante o exercício, ele comentou sobre um parente que havia se separado da esposa, a qual fora casado por mais de vinte anos, e unido à outra mulher que, na opinião dele, era uma pessoa extremamente ruim. E dentre os pontos negativos, ele focou no fato de essa mulher ser praticante do Candomblé que, segundo a visão dele, era uma religião do mal.
Tentei rebater os argumentos e procurei mostrar-lhe outra visão sobre aquele ponto de vista. Porém ele não falava com a razão, mas com o coração, que transbordava ódio tanto pela mulher como pelo parente e pela sagrada religião de raízes africanas. Então, não tendo como dialogar, pois essa atividade pressupõe que ambos expressem suas opiniões, despedi-me e fui embora.
Passei uns cinco anos sem encontrá-lo e havia me esquecido por completo desse episódio. Porém, na noite passada, estava passando ao lado de um Terreiro de Candomblé e, para a minha surpresa, o vejo saindo do ritual, ele estava contente, sorrindo e conversando com os outros fieis.
Parei o carro, fiquei observando para ter certeza de que era a mesma pessoa, ele me viu e acenou para mim. Retribui o cumprimento, pensei em descer e falar com ele, mas concluí que não compensaria a conversa e continuei meu caminho.
Fiquei pensando no fato ocorrido há cinco anos, no como a fala dele era raivosa e os argumentos preconceituosos. E agora, o vejo batendo tambor... Perguntei-me o como que uma pessoa pode defender com unhas e dentes algo que na verdade ela não concorda e não vive. E lembrei-me de outros fatos análogos.
Certa vez, em uma quermesse, uma mulher aproximou-se de um padre, que estava ao meu lado, e pediu conselhos a ele. A mulher contou, com toda discrição, algo ao presbítero. Esse, porém, ao aconselhá-la, não agiu da mesma forma; ao contrário, ele berrava, enquanto a reprendia e a julgava como: pecaminosa, oferecida, só faltou chamá-la de puta, mas essa adjetivação ficou bem subentendida. O fato pior veio depois que o clérigo terminou o sermão ou aquele ato de extrema humilhação. Ele começou a cantar a mulher e de uma maneira tal vulgar que ela saiu correndo (correr, no sentido literal).
Em minha curta jornada neste mundo, já cansei de receber refletes e cantadas de homens, aparentemente machões, de terno e gravata, que vivem falando mal dos homossexuais; bem como de mulheres “bem casadas”, defensoras da família monogâmica e altamente contrárias e recriminadoras daquelas mulheres “pervertidas que pulam a cerca”...
E também não aguento mais aquela lenga-lenga de professores autoritários e arrogantes que vivem apontando o dedo na cara de outros, dizendo que o único modelo de educação correto e libertário é o seguido por eles. E extravasam ódio sobre todos os que pensam diferentemente de si. Eles são neo-inquisidores em nome da liberdade, essa, que para eles, somente é liberdade se coincidir com o seu modo de pensar totalitário.
Essa relação entre a mentira que se fala e a vida que se vive, infelizmente, não se restringe a fatos presenciados por mim, mas está presente em todos os campos da sociedade, um exemplo crasso foram os discursos e as falas do Senador Demóstenes Torres, antes de vir à tona os escândalos envolvendo ele e o bicheiro Carlinhos Cachoeira. O senador era apresentado até pouco tempo atrás, pela grande mídia, como o “homem da moral”, o “defensor da ética” e blá-blá-blá. A mesma mídia que o defendia, agora se pergunta: o como ele conseguiu enganar tanto e por tanto tempo. Eu só não sei alguém de bom senso, que acompanha o mínimo da política em nosso país, algum dia chegou a acreditar ou dar valor ao que ele disse, mas...!?
A oposição entre o que se fala e o que se vive revela um estado de loucura, de demência, pois é como se a pessoa, enquanto discursa, encarnasse uma personagem e depois de desempenhar o seu papel em uma espécie de teatro da vida, ele volta a ser quem realmente é. Só que diferentemente do que ocorre com os atores teatrais, ele pode não se dar conta do estado de possessão dessa(s) persona(s).
Esse fato traz duas consequências desastrosas tanto para quem discursa como para quem é submetido pelo discurso. A pessoa que fala algo que não é, terá dificuldades para se deparar com seu verdadeiro “EU” pode ser visto como algo demoníaco, sujo, pecaminoso. Assim, ela procurará ser o que não é, buscará um modelo de ser humano alheio ao seu Ser.
Ninguém, porém, deixa de ser o que realmente é. E um dia, o seu Ser se revelará, o seu verdadeiro eu virá à tona. Aí que está o perigo! A pessoa não trabalhou e não procurou evoluir em seu Ser, mas buscou ser uma farsa. Porém ao mostrar o que realmente é, como ele se manifestará? De forma plena ou distorcida?
A repressão que o verdadeiro EU foi submetido pode vir de forma doentia e em represaria a maneira como foi tratado, pode leva-lo a cometer vários tipos de barbáries, tais como: pedofilia, estupros entre outras. A pessoa também pode vir a surtar e assumir definitivamente o papel desempenhado, ao longo de sua vida. Não sabendo mais separar a verdade das fantasias criadas.
E aquele que foi reprimido estenderá a repressão aos outros, e muitas vezes de forma ampliada. Tudo o que ele sofreu e sofre para esconder o seu EU será despejado em outras pessoas, fazendo-as padecer.
Esse ato de jogar pedra no outro, que é semelhante a si, tem um efeito de cartasse, pois no ato de atacar o outro, acredita-se que está afirmando a sua falsa identidade e procurando exorcizar o seu eu, o qual ele considera como um demônio. Como também acredita que o igual a si seja demoníaco. Logo, o sacrifício lhe dá a sensação de purificação, de expurgo, mesmo que seja à custa da vida alheia.
Esse processo cria um círculo vicioso de ódio e moralismo: o EU que foi odiado, em função do ódio oriundo do moralismo da sociedade, se odeia e volta o seu ódio, reforçando essa moral, agora contra aqueles que são iguais a si.
Quantas mortes esse círculo não causou? Quantas pessoas foram internadas em hospício? Quantos tiveram suas vidas dominadas pelas drogas para esconder e esquecer-se de quem realmente eram?
Ainda bem que tudo passa, muda e renova; nada é para sempre, exceto a mudança, como já dizia o grande filósofo pré-socrático, Heráclito. Esse modelo de pressionar as pessoas serem o que não são está em crise e com ele a moral, a educação, a religião que o sustentava.
Hoje, estamos assistindo o nascer de uma nova geração, que está retirando as máscaras e assumindo o seu verdadeiro Eu. Destacamos: a luta dos homossexuais; os movimentos de luta pela igualdade racial; o neofeminismo, que realizou, nos quatro cantos do planeta, a Marcha das Vadias, entre outros.
A humanidade talvez esteja acordando do sono profundo provocado por um moralismo que não era vivido nem mesmo por seus mais fortes defensores. E quiçá que neste novo mundo que se descortine esteja a busca e a evolução do EU de cada um e cada uma.