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Utopia

A reconstrução, a partir do topos, da U-topia
Wilson Horvath

José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?(...)
Mas você não morre,
você é duro, José!
(Carlos Drummond de Andrade)
A palavra utopia, cunhada primeiramente por Tomas Morus, em 1516, é construída a partir da junção de dois radicais gregos, sendo U (οὐ, que significa: não) e Topia (derivada de τόπος, e significa: lugar), assim, sua tradução literal-etimológica é: não-lugar ou lugar-algum. Mas cada pensador que se dedicou a refletir sobre o “não-lugar”, o apresentou de uma forma diferente e pretendeu alcançar um objetivo específico, então no mundo das ideias há vários não-lugares, ao invés, de um único. O que há em comum entre os diversos não-lugares é que eles foram pensados para servir de contraponto à realidade concentra vivida por seu autor, pois ao anunciar um lugar diferente daquele, ao mesmo tempo, ele denunciava as falhas existentes no lugar real; e ao sistematizar seus devaneios, objetivava que sua utopia ajudasse as pessoas a caminharem em direção àquele não-lugar. Daí, a utopia tem uma função pedagógica, no sentido stricto da palavra, assim, como o pedagogo (paidagogos do grego: paidós = criança, e de agogía = condução) conduz as crianças ao caminho do saber, a utopia pretende conduzir as pessoas a um mundo melhor: Eutopia (eu, do grego: feliz, graça), que quer dizer lugar feliz.
A questão colocada a nós, ao propormos refletir sobre a utopia, não é se ela pode ou não ser concretizada, pois sua própria etimologia diz que não, do contrário, ela seria topia e não utopia. As questões, que procuramos responder neste pequeno artigo, são: O que ocorreu com as utopias do passado? É possível pensar utopia depois do anuncio da morte de Deus; do bombardeio de Hiroshima e Nagasakia; da queda do Muro de Berlim? A utopia tem a força pedagógica de outrora? Qual ou quais utopias são contrapontos a nossa realidade presente? Como nossa docência pode contribuir com ela(s)? Nós procuraremos responder a estas questões a partir da Teoria da Complexidade, em especial, o Conceito de Política de Civilização, em Edgar Morin, e com o coração marcado pela música, que não cessa de ressoar, de Gonzaguinha: O que é, o que é?: “(...) Ah meu Deus!/ Eu sei, eu sei/ Que a vida devia ser/ Bem melhor e será/ Mas isso não impede/ Que eu repita/ É bonita, é bonita/ E é bonita (...)”.

1. A grande Utopia ocidental: A Salvação judaico-cristã

A Torah judaica e posteriormente a Bíblia cristã descreve, em linguagem mítico-religiosa, a História de Salvação realizada por Deus em favor de seu povo e/ou a forma como este povo entendeu-imaginando ou imaginou-entendendo a revelação do “Inexplicável”, ao longo de sua história. É característico, nestes textos sagrados, o sofrimento vivido pelo povo decorrente da escassez de recursos, causada por guerra, cativeiro, má administração; e a ação libertadora de Deus em favor do povo sofredor.
A figura de Moisés (Moshe, em hebraico) é paradigmática para entendermos este processo de libertação. Moisés é tido pelos judeus e cristãos como o Grande Profeta e como modelo de legislador e patriarca. Segundo o Livro do Êxodo (Em Hebraico: We´él•leh shemóhth, que significa: Ora, estes são os nomes; ou simplesmente: Nomes), Moisés era filho de escravos judeus no Egito e fora adotado por uma princesa egípcia. Aos quarenta anos de idade, após ter matado um soldado egípcio que maltratava os escravos judeus, Moisés tem uma revelação de Deus. Este encontro fundamentará a fé judaica e posteriormente a cristã. De acordo com o relato bíblico :

O Senhor disse: “Eu vi, a opressão de meu povo que no Egito, ouvi os gritos de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento de seus sofrimentos. E desci para libertá-los das mãos dos egípcios e para fazê-los subir do Egito para uma terra fértil e espaçosa, uma terra que mana leite e mel (...) (Êxodo, capítulo três, versículos sete e oito).

A teologia presente neste texto sugere algumas interpretações. Primeira: Deus se compadece com o sofrimento de seu povo; segunda: Ele não está mais distante “no alto do céu”, como estavam o(s) deus(es) egípcio(s), mas no meio do povo, com o povo; terceira: sua estada com o povo, tem uma finalidade específica, que é libertá-lo e conduzi-lo à Terra Prometida. A identidade nacional e a cultural do povo judeu nascem e fortificam com esta certeza: Deus os libertou e a sua terra é uma dádiva divina. Essa certeza fez com que o povo, segundo o relato bíblico, saísse da escravidão do Egito e enfrentasse quarenta anos de travessia no deserto; e séculos mais tarde, fez que os judeus conseguissem suportar outra deportação e escravidão, agora, em Babilônia, (Conferir os livros bíblicos: Jeremias, Ezequiel e Daniel) e tivessem forças para retornar para a sua terra e reconstruíssem novamente seu país.
No século I a.C., a região da Palestina sofreu a dominação do mais forte e consistente império da época: o Império Romano. E após sucessivas revoltas dos judeus que não aceitavam a dominação romana, Roma invade e destrói sua capital Jerusalém, em 70 d.C., e expulsa os judeus de sua terra, provocando a diáspora dos judeus pelo do mundo. Os judeus conseguiram restabelecer o Estado de Israel, somente, em 1948, com o apoio da Organização das Nações Unidas e desde então, iniciou um conflito entre judeus e muçulmanos que lá viviam e a quem pertencia o território. Não entraremos na questão da guerra entre judeus e muçulmanos, que exige uma reflexão que ultrapassa, e muito, os limites deste artigo. Nós queremos apenas ressaltar a força utópica que teve a fé judaica, como fator de união do povo e identidade cultural e nacional, nos quase dois milênios, em que viveu sem pátria.
O cristianismo, a partir da figura de Jesus de Nazaré, universalizou a experiência de Salvação judaica para toda humanidade e, ao invés, da terra prometida, propôs o Reino de Deus àqueles que se convertessem ao cristianismo. Segundo a teologia cristã, Jesus é, ao mesmo tempo, o Filho de Deus e o próprio Deus, assim, em Jesus, o Deus judaico se encarna, ou seja, torna-se humano. Os nomes de Jesus refletem a teologia de salvação, vista acima na revelação de Deus a Moisés. Jesus é aportuguesamento de Iesus, em grego, que por sua vez adaptou do hebraico o nome Yeshua (יֵשׁוּעַ) que traduzimos por: “Deus Salva” ou “Deus é a nossa Salvação” e Emanuel, do Hebraico Immanuel (עמנואל) que traduzimos por “Deus Conosco” ou “Deus na humanidade. Assim, Jesus é o Deus que está com a humanidade, a fim de salvá-la, libertá-la.
O cristianismo se estruturou como religião após a diáspora judaica, em 70 d.C., até então, ele era uma pequena seita do judaísmo. Os cristãos foram perseguidos, escravizados e mortos por causa de sua fé até 313 d.C., ano que foi promulgado o Édito de Milão, por Constantino, que concedeu liberdade de culto aos cristãos. Mas, mesmo debaixo de perseguições, o cristianismo cresceu com grande efervescência dentro do Império Romano. A fé cristã era perpassada através da Didaqué ou Instrução dos Doze Apóstolos – conjunto de doutrinas cristãs e serviços litúrgicos, elaborados nos primórdios do cristianismo –; da prática do Ágape – o amor incondicional ao próximo, independente de quem seja –; da partilha do pão; e do exemplo dos primeiros cristãos, em especial, do martírio, segundo o teólogo Tertuliano de Cartago (155-222): “O sangue dos mártires era semente de novos cristãos”.

2. Brevíssimo panorama das utopias, na Filosofia do Ocidente

Antes de iniciarmos esta reflexão, se faz necessário, ressaltar, que embora a utopia possa parecer uma reflexão alienada e/ou fugit mundi. Os filósofos, em geral, cada qual a sua maneira, sofreram perseguições por causa de suas ideias utópicas. Ninguém é preso por suas ideias à toa; se eles foram, é porque suas ideias foram contra o status quo vigente em sua época. Isso vem ao encontro de nossa tese sobre a importância pedagógica da utopia em motivar as pessoas a procurar novos horizontes e a caminhar em outras direções.

Platão (428/427 – 348/347 a.C.) e a Utopia da Sabedoria.

 O Filosofo, em A República (2001), elabora uma forma de governar, organizar e educar em sua cidade ideal: Callipolis (bela cidade, em grego). Em sua reflexão filosófica, Platão acredita que o interesse pessoal degenera o bem maior que é o interesse da pólis (cidade-estado grega), então, para evitar este mal, ele propõe a supressão da família e da propriedade privada, ambas causadoras de egoísmo e ambição. O Estado seria o responsável pela educação das crianças, estas receberiam educação semelhante até os 20 anos, nesta fase, os pedagogos que as acompanharam durante este processo, separariam aquelas que possuíam a alma de bronze, esta irracional e concupiscente, responsável pelas necessidades básicas, para as funções de agricultor, artesão e comerciante. E os demais alunos teriam mais 10 anos de educação, então, seria feito uma nova seleção, em que, os pedagogos selecionariam os que possuem alma de prata, esta irracional e irascível, responsável pelos impulsos e afetos, a eles seria confiado a defesa da cidade. E os que sobraram por possuírem alma de ouro, esta racional, responsável pelo uso correto da razão, seriam educados com a Filosofia, a fim de purificar a sua alma, por mais 5 anos. Destes alunos, os que demonstrassem bom conhecimento filosófico, sabedoria e virtude, em sua vida prática, seriam empossados como magistrados e governantes, aos 50 anos de idade. Assim, para a pólis ser bem governada e com isso, garantir a felicidade da população, os seus governantes devem ser filósofos e estes devem se tornarem governantes.

Tomás Morus (1478 – 1535) e a Utopia Socialista.

 Morus constrói sua Utopia (1997) a partir de um imaginário relato de Rafael Hitlodeu, antigo marinheiro que fora companheiro de Américo Vespúcio e após a morte deste, continuou a viajar e, nestas viagens, descobriu a Ilha de Utopia. A cosmovisão dos moradores da ilha e sua organização social satirizam o modo de vida europeu do século XVI, em especial ao inglês, que paulatinamente deixava de ser medieval e se tornava burguês. Percebe-se claramente isso, ao lermos o momento em que desembarcou, na ilha, Rafael e os embaixadores presentes, eles usavam adereços de ouro, e isso causou risos nas crianças, pois, lá, as joias ou eram brinquedos de bebês ou o material usado para identificar os prisioneiros. Em Utopia, todos vivem felizes, não há propriedade privada – esta entendida por Morus como a fonte de todos os males – nem exploração do trabalho; as pessoas trabalham seis horas, por dia, e o restante do tempo, dedicam-se ao cultivo da arte, lazer, filosofia etc. E mesmo assim, eles conseguiam produzir além de suas necessidades, haja vista, que não havia ninguém sem trabalhar para sustentar, como ocorria na Inglaterra (nobreza, clero, forças armadas, comerciantes e burgueses). O governo é republicano e seus representantes saíam do povo e eram escolhidos tendo por referência sua experiência e sabedoria. As crianças são educadas, desde cedo, a não serem egoístas e a ver a felicidade geral maior que a individual. Morus ao imaginar sua ilha, sofre grande influência de Platão, mas ao contrário deste, a mudança ocorrida na ilha não foi por vontade do Rei Filosofo, e sim, do povo, ou seja, realizou-se de baixo para cima.


Tommaso Campanella (1568 – 1639) e a Utopia da justa medida entre Ciência e Filosofia 

A obra de Campanella antecede e alicerça muitos pontos da Filosofia Moderna, como: Descartes, Kant e Leibniz. Campanella era admirador de Galileu e, ao mesmo tempo, foi crítica à Filosofia Escolástica, dirigindo sua criticas a Aristóteles. Em sua obra Cidade do Sol (2002), o Filosofo reproduz a abolição da propriedade privada e o governo exercido pelo rei filósofo, conforme Platão. A originalidade de Campanella está na junção entre a Metafísica – está que deve governar, na figura do rei (Hoh) – e as ciências, exercida por um dos assistentes de Hoh: Sin. Sin representa a Sapiência, responsável pelo estudo e aplicabilidade da astrologia, artes, gramática, matemática, medicina, política. Os outros assistentes são Pon (Potência, responsável pela defesa da cidade) e Mor (Amor, encarregado de garantir que a reprodução humana fosse saudável).
Francis Bacon (1561 – 1626) e a Utopia Científica. Bacon morreu, sem concluir sua obra utópica: Nova Atlântida (1973), mas, mesmo assim, é impressionante o como Bacon antecipou as descobertas e ações da ciência, na sociedade atual. O filosofo descreu quase todos os avanços científicos: a criação de plantas e animais artificiais, perfeitos; construção de grandes fábricas, estações de pesquisa, máquinas, navios e aviões; geração de energia; desenvolvimento preciso da maquina bélica. Até o mundo virtual é contemplado, e forma metafórica: “Temos ainda casas de ilusões dos sentidos, onde executamos todas as espécies de jogos de prestidigitação, falsas aparências, imposturas, ilusões e falácias (…) enganar os sentidos se quiséssemos ocultá-las e fazer com que parecessem mais milagrosas” (p. 275). Ele faz o rompimento total entre ciência e fé, ao contrário de Campanella que descreveu uma sociedade, onde a Filosofia, religião e a magia conviviam harmoniosamente com ciência, Bacon considera todo o pensamento que não é cientifico, primitivo e irracional. Para o Filosofo, saber é poder, assim, o cientista deve conhecer as leis da natureza, e após descobrir os seus segredos, dominá-la, transformá-la e maltratá-la, segundo seus interesses.

John Locke (1632 – 1704) e a Utopia Liberal.

 Locke não chegou a escrever uma obra de utopia propriamente dita nem é considerado como tal, mas suas ideias tiveram forte influência utópica na confrontação burguesa contra a política absolutista, culminando nas revoluções liberais: Revolução Gloriosa (1685 – 1688); Revolução Americana (1775 – 1783); e na primeira fase da Revolução Francesa (1789 – 1799). Em sua obra: Dois tratados sobre o governo civil (2006), o Filósofo delineia as aspirações das políticas modernas (estas somente podem ser entendidas na confrontação com o poder absoluto medieval). O individuo é tido como sujeito de direito civil, inalienável. Ele é proprietário de si, de sua vida, de seu corpo. O mundo natural é uma dádiva de Deus dada à humanidade e não a uma única pessoa, o ser humano se apropria da parcela que lhe cabe, neste mundo, através de seu trabalho. O trabalho é uma extensão que o individuo faz de si sobre a natureza, transformando-a em seus bens. Assim, o ser humano é entendido como um sujeito de posse, posse de si e posse da propriedade. A fim de garantir o direito de posse, Locke propõe o Direito Natural, em que cada indivíduo deve reconhecer o direito do outro e não tentar subtrair a liberdade alheia. E para sustentar a aplicabilidade deste direito, o sujeito individual se abstém de seu direito de combater e punir àqueles que ameaçam a sua propriedade, delegando à sociedade política (conjunto de homens proprietários). O Estado – fruto de um contrato social entre os sujeitos particulares –, portanto, tem o dever de garantir a liberdade do sujeito em relação àquilo que ele é proprietário, ou seja, sua pessoa e seus bens. E desdobrando este raciocínio, o Estado não poderia se opor a este direito. Locke reconhece que todos os homens fazem parte da sociedade civil, porém, somente os possuidores de fortuna têm o direito de governar, pois estes têm plenamente desenvolvidas a capacidade de raciocinar e têm interesses na preservação da propriedade.

Adam Smith (1723 – 1790) e a Utopia da Mão Invisível do Mercado.

Smith (1983) incorporou o conceito agostiniano da Mão Invisível de Deus – que rege o mundo à benitude – ao mercado. Assim, o mercado torna-se um ser onisciente e onipotente que rege a economia, visando à plenitude. Os interesses pessoais (self-interest) de cada indivíduo devem coincidir com a mão-invisível do mercado para que haja o progresso e o desenvolvimento. A teologia agostiniana prega o livre arbítrio, em que, o ser humano tem o direito de escolher entre o Bem e o Mal, da mesma forma, em Smith, a pessoa pode escolher entre seguir os desígnios do mercado e ser recompensada ou não seguir e sofrer as consequências. As leis do mercado seguem leis determinadas de desenvolvimento, conforme as leis da física newtoniana. A fim de que o mercado se desenvolva plenamente se faz necessário que o Estado não intervenha nela, deixando a mão invisível agir livremente. O papel do Estado seria garantir e estimular a livre concorrência entre as pessoas e empresas, só através desta, é possível haver progresso.

3. Da Utopia à Ideologia

As utopias representam, em geral, a vontade coletiva de um grupo ou classe social marginalizada e estas aspirações foram, ao longo do tempo, sistematizadas. Assim, elas têm uma função revolucionária, ou seja, mudar o status quo, como ocorreu na passagem do feudalismo para o capitalismo ou até mesmo recuperar o status quo perdido, conforme o ocorrido com a aristocracia, na época de Platão. Porém, após o grupo marginalizado assumir a hegemonia ou ao se deslocar a Utopia do contexto em que foram criadas, as mesmas ideias que outrora eram utópicas podem se tornar ideológicas, pois neste caso, sua função é justificar o status quo.
A grande utopia da salvação judaico-cristã impregnou o modo de pensar ocidental, a figura do Messias e da promessa de salvação esteve presente na aplicação das demais utopias filosóficas, vistas acima. A ideia de salvação foi ora confirmada ora rejeitada, mas ao ser rejeitada, os arquétipos de salvação divina e de messias foram substituídos por outros que deram a mesma certeza de outrora. Então, ao pretender aplicar a utopia à realidade e, com isto, querer transformar o “lugar” em “não-lugar”, se pretendeu, também, transformar este mundo em uma espécie de “Reino dos Céus”.

A ideologia da Sabedoria


A Igreja Católica, após a queda do Império Romano do Ocidente, em 476, de um grupo de perseguidos pelo Império Romano se tornou a única instituição europeia capaz de organizar a coletividade. A Igreja toma para si todo o patrimônio cultural romano, este helenista e faz a junção da Utopia do Reino de Jesus com a Platônica. O Rei Filósofo ganhou vida na figura do Papa – entendido pelos católicos, como o sucessor de São Pedro –, cardeais e bispos. E desdobrou naquilo que Leonardo Boff (1977) chamou, ao analisar a Igreja, nos anos de 1970, de disputa entre o carisma (utopia) e o poder (estrutura hierárquica). A Igreja Católica viveu desde o período medieval esta disputa. De um lado, ela era abrigo e refugio dos famintos, doentes e perseguidos; bispos ao proteger os pobres, travaram várias querelas com príncipes que queriam explorar o povo; destacam-se como representantes desta Igreja, figuras como: São Francisco de Assis, São Domingos de Gusmão, São Pedro Nolasco; de outro lado, a Igreja foi e esteve ao lado da nobreza europeia e sob a benção papal, realizaram-se as barbáries da Inquisição, genocídio dos índios latino-americanos. O Antigo Regime – estabelecido em França, entre os séculos XIV e XVIII, a sociedade francesa encontrava-se dividida em três estados (ordens): o clero (Primeiro Estado), a nobreza (Segundo Estado) e a burguesia e os camponeses (Terceiro Estado) – é paradigmático para entendermos o uso da ideologia da sabedoria para dominar. Neste regime, o clero dedicava às coisas do céu, a culta nobreza governa, e os insipientes, não sabendo fazer outra coisa, trabalhavam para sustentar àqueles.
A ideologia da Igreja Católica foi paulatinamente perdendo forças políticas à medida que a burguesia acendia ao poder, esta que precisava de uma nova forma de pensar, que servisse de contraponto ao modelo feudal e garantisse o progresso burguês, tendo na Revolução Francesa (1789 – 1799) o ponto fulminante para a estrutura medieval. Porém, foi Friedrich Nietzsche (1844 – 1900) quem retirou da Igreja o seu mais forte e precioso sustentáculo. Em seu livro A Gaia ciência, Nietzsche descreve:

Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. (...) O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? (...) Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob nossos punhais – quem nos limpará este sangue? (...) Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? (...)(2001, fragmento 125, p.147-8).
É interessante ressaltar alguns pontos deste fragmento. O primeiro é que não foi Nietzsche quem “matou Deus”, ele constata que Deus está morto a partir da análise do modo de viver e pensar de sua época, na qual, a presença de Deus ou dos humanos que agiam em nome Dele não tinha mais o peso decisório de outrora (antes do Iluminismo). Nietzsche não entra na reflexão metafísica sobre a existência ou o “Ser” de Deus, portanto o deus a que o filósofo se refere é: o deus-moral, ou seja, o deus que sustenta a reflexão e a ação moral-ética. Assim, mesmo se Nietzsche não tivesse descrito a morte do deus-moral, este continuaria sem forças para pré-determinar o pensar e o agir da humanidade, pelo menos não da forma como fizera a Igreja Católica, nos anos que precederam o iluminismo.
A reflexão nietzschiana atinge, além do pensamento religioso, o próprio modo de pensar ocidental, este fundamentado pela lógica aristotélica, que dentre as suas características, busca sempre a fundamentação última para o fenômeno. Se Nietzsche, ao invés, de dizer que Deus estava morto, dissesse que Deus não existe ou que ele era fruto da imaginação humana, ele criaria um fundamento último para a sua reflexão e deste se desdobraria toda a sua reflexão filosófica. Assim, ao constatar a morte de Deus, no pensamento moderno, Nietzsche nos afirma que qualquer reflexão que busque o fundamento último está fadada ao insucesso, ou seja, ela pode ser bonita e consistente, porém é sem bases epistemológicas, daí a metáfora do “Castelo de Areia”. Nesta perspectiva, os pensadores, da renascença e do início da modernidade, se debruçaram em criar outro modelo de pensamento, o pensamento científico.
A ideologia Científica. Os pensadores propuseram uma nova salvação, esta que seria dada pela ciência, em especial, a ciência empírica e um novo messias: o cientista. Todos os males da humanidade seriam resolvidos pela aplicação do método correto da ciência, que prometeu, ao ser humano, o controle total das rédeas da natureza e de si. Assim, os cientistas adentram a pesquisar em todas às áreas da natureza e do homem. Estas descobertas trouxeram vários avanços para a sociedade: descobrimento de vacinas e novas técnicas médicas, consequentemente o prolongamento da vida; melhoria nos meios de comunicação e transporte; aumento na produção de alimentos etc. Porém, o cientificismo não conseguiu responder a toda problemática do ser humano, e da natureza. Novos vírus surgem a partir de mutação genética de vírus que foram extintos por vacinas; doenças, causadas pelo efeito colateral da ingestão de remédios, continuam matando; seres humanos, sem sentido de vida, se entregam a psicotrópicos, que tornam suas vidas sem emoção e sentimento, beirando ao estado vegetativo. E o mais grave, ao propor um novo modo de pensar, a ciência se desvinculou da ética, esta que estava atrelada ao modo de pensar medieval, a própria ciência se tornou juíza de si e com isto, os cientistas colocaram em risco de extinção toda a vida no planeta, que iniciou com a descoberta da força nuclear que desdobrou nos bombardeios de Hiroshima e Nagasakia, em 1945 e na explosão da usina de Chernobil, em 1986. Os modernos e eficazes meios de produção estão destruindo o meio ambiente e causando o desaparecendo de várias especies; aumentando a temperatura da terra e provocando: o degelo do Oceano Ártico, aumento dos níveis de precipitação e desertificação de algumas regiões.
A ciência se desenvolveu e foi fomentada por dois sistemas econômicos modernos, que ora estiveram juntos ora digladiaram entre si, o socialismo e o capitalismo. Ambos se estruturaram em lógicas cientificas para se desenvolverem, e viram na economia a possibilidade de salvação.

A Ideologia Socialista 
O Socialismo surgiu como resposta à exploração capitalista, esta responsável por produzir várias mazelas sociais, e do sonho dos socialistas em produzir um mundo onde imperava a justiça, a igualdade, a solidariedade. Os teóricos, em uma visão maniqueista, viram a salvação no modelo econômico socialista e o messias, para implantar este modelo, seria o proletariado.
Os Bolcheviques – tendência política pertencente ao Partido Operário Social Democrata Russo, liderada por Vladimir Lenin (1870 – 1924) e, em russo, significa: majoritários, que estava em oposição à outra corrente política do mesmo partido, os mencheviques, que quer dizer: minoritários – a fim de efetuar a implantação do socialismo, defenderam a criação de quadros profissionais de revolucionários, a eles seriam confiado o “fazer revolucionário”, assim, o povo esteve fora das decisões estratégicas do partido, relegados à função de “massa de manobra”, ou seja, usados apenas como número de soldados no processo revolucionário. Os Bolcheviques viam apenas na revolução armada a via de transformação para o socialismo, enquanto que os Mencheviques propunham uma democratização da sociedade e maior participação popular como via de superação. Os Bolcheviques, ao assumir o poder, em 1917, em nome da tão esperada transformação sonhada por Morus, que foi sistematizada cientificamente por Marx, e defendida com a vida pelos socialistas, estabeleceram, ao invés da ditadura do proletariado, a ditadura sobre o proletariado, na antiga URSS, onde camponeses e proletários foram roubados, torturados e mortos, bem como àqueles que a eles se opunham, destacam intelectuais socialistas, como: Leon Trótski (1879 – 1940). Assim, o socialismo real foi à concretização de apenas uma via do socialismo, o bolchevique. Nós não temos experiência de outras formas de socialismos, tal como pregaram os mencheviques. Josef Stalin (1878 – 1953), a frente do governo soviético e do Partido Comunista, intensificou a ditadura do Partido Comunista sobre o povo e dividiu o país em duas classes ou estamentos sociais: Os membros do Partido Comunista, que controlavam, além do Estado, os meios de produção, distribuição de bens de consumo etc. e os trabalhadores, como antes da revolução socialista, somente tinham sua força de trabalho.
Este modelo socialista que praticamente evaporou-se no ar, por causa de suas contradições internas e não de um confronto com o capitalismo, com a queda do muro de Berlim, em 1989, que simbolizou o fim do modelo socialista real e foi aplaudido pelos ideólogos capitalistas como o fim da história.

Ideologia Capitalista. 

Os ideólogos neoliberais, tais como: Fukuyama (1992), procuram impregnar em nossas mentes e corações: a Ideologia do Fim da História, em que, com o fim do socialismo real-soviético e a supremacia do capitalismo, a humanidade chegara ao auge do desenvolvimento sócio-politico-econômico e científico. Os países pobres deveriam, então, seguir o exemplo dos países ricos e, assim, dar início ao seu desenvolvimento. Nada haveria a fazer, senão adaptar-se. É o fatalismo do pensamento único! Nesta visão, o sistema capitalista é bom e os que estão sofrendo, estão porque não tiveram a capacidade ou não quiseram se adaptar a ele. O sistema capitalista é a salvação e a burguesia é o novo messias. Porém, assim, como a Igreja Católica, no período medieval e o socialismo real soviético não conseguiram dar conta da totalidade da vida humana, o capitalismo também não. A sua lógica de acumulação primitiva produz a cada ano, um número maior de miseráveis. Os que não têm nem comida suficiente as suas necessidades, segundo Jacques Diout, diretor da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação), em 2007 eram aproximadamente 832 milhões de famintos, em 2008: 963 milhões, e em 2009 este número passaria de um Bilhão3.
E como a inquisição-católica e o stalinismo-socialista, o capitalismo também produziu o seu modelo de horror com o nazismo e o fascismo, que nasceram como resposta da extrema-direita ao socialismo, que avança sobre a Europa, e conseguiriam mobilizar e cegar grande parte do povo alemão e italiano, em especial a juventude, a partir de 1929, ano da grande crise econômica até 1945, queda do governo nazista.
As crises econômicas de 1929 e recentemente de 2008 desmentiram a utopia capitalista (liberal e mão-invisível do mercado). Em ambas as crises econômicas, o Estado, em especial, os que se intitulavam como neoliberais, interferiram pesado na economia, com dinheiro público, para não deixarem-na desabar. Por isso, depois de 2008, podemos afirmar que: ou nós não temos mais o neoliberalismo, pois houve uma profunda ação política, de políticos e não de economistas, em defesa dos capitalistas e de suas instituições ou que o neoliberalismo não é como o nome sugere: um novo liberalismo, mas precisamente o contrário: uma forte ação política em defesa da economia.
Nós, diante deste cenário, concluímos, esta primeira parte de nosso artigo, afirmando que se no final do segundo milênio, tivemos o fim das utopias, o início do terceiro milênio, marcou o fim das ideologias.

4. E agora, José?

A pergunta feita por Drummond em seu poema José e usada, por nós, como epigrafe deste artigo: “E agora, José? E agora, você?”, é de fundamental importância para repensarmos a educação, no mundo, onde as grandes utopias do século XIX não têm mais a força de outrora, e propormos novos rumos para a educação, bem como, definir qual é o seu papel na sociedade dita pós-moderna. E da indagação drommondiana, surgem outras específicas a nós educadores:
E agora, professor? E agora, professora? O que nós trabalharemos em sala de aula? Quais são os recortes que faremos? Quais sonhos, nós compartilharemos e construiremos com nossos alunos? Ao criticarmos o status quo, quais são as possíveis soluções? Há saídas?
Estas questões eram de fácil resposta teórica, anteriormente. Se estivéssemos vivendo na cristandade, responderíamos a partir do axioma: Extra Ecclesiam nulla salus (Fora da Igreja não há salvação!); no início da modernidade, falaríamos que a ciência seria a solução para todos os problemas da humanidade; em Londres de 1882 (ano de publicação do Manifesto do Partido Comunista, por Marx e Engels), primeiro centro do capitalismo, nós procuraríamos encarnar o espectro do socialismo, que rondava a Europa; diante da monarquia absolutista do século XVII, nossa resposta estaria nas liberdades econômica e política; e sofrendo a ditadura soviética, exporíamos as benéficas da livre concorrência e da propriedade privada.
E agora... José? Estas utopias fracassaram, envelheceram e morreram, por isso, elas não motivam mais. “A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José?” Diante desse cenário, muitos educadores, cheios de entusiasmo, no passado recente, perderam a esperança e não sabem mais como militar, como fazer suas analises sobre a realidade nacional e mundial nem como apresentar possíveis soluções às mazelas sociais; outros educadores vivem um enorme saudosismo do passado, para eles são corretos somente aqueles que agem e pensam como eles, por isso, não conseguem propor nada de novo nem dialogar com o presente e com possíveis vias de transformação que podem surgir; e por fim, há aqueles que se entregaram às determinações do mercado e transformaram suas reflexões e aulas em espaços de auto-ajuda, de treinamento para a ascensão individual, de adaptação às exigências do mercado e se esquecem totalmente de refletir sobre o coletivo e sobre os problemas que afetam a humanidade.

5. A morte do Leviatã

As grandes navegações do século XV para se concretizarem, foi preciso que os navegantes enfrentassem um grande inimigo: “o Leviatã”, monstro marinho que supostamente naufragava os navios que cruzavam a linha imaginária do Equador. O mito do Leviatã não foi superado por nenhuma reflexão científica ou filosófica, mas sim pelo próprio ato de navegar, à medida que as naus conseguiram completar suas viagens, o mito foi perdendo forças, até cair no esquecimento. Porém, novos Leviatãs surgem a todo o momento, os dois últimos são as indestruitividades do comunismo e do capitalismo. A queda do Muro de Berlim, em 1989, derrubou o primeiro mito, mas ampliou a força do segundo e deu-lhe status de deus monoteísta.
O imaginário religioso, construído em veneração a este deus, diz que ele controla todas as relações sociais, nossas vidas “são dados” em suas mãos. Seus fieis o temem, por isto, aceitam e entregam vidas humanas ao sacrifício, com a mesma naturalidade, que jovens virgens eram sacrificadas a fim de acalmarem a fúria dos deuses astecas. E o que é pior, as pessoas temem que sem “sua mão protetora”, se instalem o caos, a desordem. Assim, muitas pessoas que mesmo não concordando com o atual sistema político-econômico, temem que algo de ruim possa acontecer a ele.
A fé das pessoas neste deus diz que ele impede uma ação política eficaz e esta é determinada pelo capital. Se este deus for assim, a atual crise econômica, iniciada nos EUA, em 2008, assim como a crise de 1929, nos revelou que este novo Leviatã está morto, pois durante a crise econômica assistimos exatamente o contrário, a política que protegeu o capital. Então, como o Leviatã dos mares e o comunismo, ele morreu pelo próprio processo histórico, sem uma revolução que o matasse.
É evidente que o sistema capitalista ainda está de pé e com muita força, seria muita ingenuidade afirmar o contrário, mas o sistema está sem a aura divina, o que estamos assistindo é um enorme esforço de algumas pessoas, para mantê-lo vivo. Ao encararmos a realidade sem endeusá-la, esta se torna mais fácil de ser modificada, pois percebemos as suas fragilidades. O ponto mais fraco do atual sistema é que ele por si próprio não pode, como nenhum outro sistema, se auto sustentar. Assim, se tivermos mais pessoas agindo em prol da mudança, pode ser que, em um futuro breve, tenhamos outro mundo, onde as relações e a forma de vida sejam diferentes da que vivemos hoje.
Hegel diz que: "A filosofia, tal como a coruja de Minerva, alça vôo apenas ao entardecer". Ou seja, nossa mente precisa de um tempo para se adequar e perceber as mudanças ocorrendo, pois nossos mitos e racionalidade nos impedem de vermos e entendermos de imediato a realidade tal como ela nos apresenta. Foi necessário um tempo para perceber que não havia nenhum marinho que destruía os navios; também gastou certo tempo para saber que a Grande Rússia não era indestrutível, mesmo depois de sua queda; o mesmo vale para o capitalismo.
A realidade é dinâmica e flutuante, nós educadores precisamos abrir nossos olhos e dirigir nossas reflexões para o novo movimento histórico que está em curso há algum tempo, já é hora da coruja de Minerva voltar a voar e voar para novos lugares. Para tal, apresentamos o conceito de Política de Civilização, apresentado por Edgar Morin.

6. Política de Civilização

Edgar Morin, em entrevista ao jornal italiano La Repubblica, no dia 03 de janeiro de 2008, responde sobre o sentido do seu conceito de política de Civilização.

Parti de um diagnóstico: a nossa civilização ocidental produziu muitas conseqüências positivas, mas também negativas. Estas últimas se tornaram cada vez mais importantes: aquecimento climático e degradação da biosfera, problemas das metrópoles, cultura intensiva da agricultura. Tudo isso coloca em evidência os problemas nascidos do desenvolvimento da nossa civilização científica, técnica, econômica. Acrescento ainda que a abundância do bem-estar material não foi acompanhado de em “viver bem”, de um bem-estar ecológico e moral. Há um grande mal-estar entre os cidadãos que mais se beneficiam da nossa civilização. A partir deste diagnóstico fiz um certo número de propostas concretas porque não basta falar de solidariedade, é preciso também dizer com quais meios se pode realizá-la: a política de civilização visa a corrigir os males da nossa sociedade salvaguardando os seus benefícios.(on-line)

Morin elabora a Política de Civilização a partir da constatação dos problemas que assolam a humanidade e que podem levar à destruição desta. E procura corrigí-los pela aplicabilidade do princípio da solidariedade em oposição às barbáries de nosso tempo. A Solidariedade é pertencente à natureza humana, mas, muitas vezes, foi silenciada pelo individualismo, atomização, anonimato, servidão as imposições organizacionais, características da sociedade tecno-econômico-burocrática, que vivemos. Assim, a Política de Civilização deve fazê-la vir à tona.

Há em cada um e em todos nós um potencial de solidariedade que se revela em circunstâncias excepcionais, e existe numa minoria uma pulsão altruísta permanente. Não se trata pois de promulgar a solidariedade, mas de libertar a força inexplorada das boas vontades e de favorecer as acções de solidariedade” (MORIN, 1997, p.151).

A Solidariedade é conditio sine qua non para a revitalização de outros três imperativos necessários à Política de Civilização: revitalizar (contra a anonimização); conviver (contra a degradação da Qualidade de Vida); moralizar (contra a irresponsabilidade e o egocentrismo). Os quatro imperativos (solidariedade, convivência, moralidade e revitalidade) são inter-dependentes, causa e causador um do outro. Assim, a Política de Civilização pretende abrir uma via de esperança para despertar suas boas ações e adesão dos cidadãos.

O ingrediente vital de que todos precisamos, e precisa a própria política, é a esperança. a ressurreição da esperança não é aqui a ressurreição da grande promessa, é a ressurreição de uma possibilidade3 (Ibidem, p.169).

O Sistema Capitalista, como vimos acima, é ideologicamente apresentado como inexorável. Morin pretende ressuscitar a esperança de superá-lo, conforme sonharam os socialistas de outrora, mas com algumas diferenças: a mediação, ou seja, o motor da transformação e aposta ao invés da grande promessa.

6.1. O novo motor para a transformação

O oposto é conveniente, e das diferenças nasce a mais bela harmonia (Heráclito).

Marx e Engels, em Manifesto do Partido Comunista, afirmam que a história da humanidade se desenrolou através da luta, do antagonismo entre as classes sociais existentes:

Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e companheiro, numa palavra, o opressor e o oprimido permaneceram em constante oposição um ao outro, levada a efeito numa guerra ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta, que terminou, cada vez, ou pela reconstituição revolucionária de toda a sociedade ou pela destruição das classes em conflito. (on-line, p. 26).

Os socialistas entenderam que a superação do capitalismo para chegar ao socialismo, a partir desta, já existente, luta de classes, e os agentes da ação revolucionária, o motor da transformação, não poderia ser outro, na visão dialética clássica, senão os proletariados, que é o oposto da burguesia: “A burguesia, porém, não forjou apenas as armas que representam sua morte; produziu também os homens que manejarão essas armas – o operariado moderno – os proletários” (Ibidem, p. 32).
Porém, a tão esperada transformação sonhada por Marx, e defendida com a vida pelos socialistas ora se transformou, como vimos acima, no pesadelo da ditadura stalinista, na antiga URSS, onde camponeses e proletários foram roubados, torturados e mortos; ora, na América Latina, foi duramente reprimido com a ditadura militar.
Morin propõe um novo motor: “O Grande Motor não poderá ser outro que o medo do suicídio2”(1997, p. 131). O motor, ou seja, aquilo que propulsionará a transformação será o desejo de ficarmos vivos, e não deixar que o ser humano ou alguns destes levem à destruição coletiva, ao suicídio coletivo do planeta. Assim, surge uma nova luta, entre aqueles que querem viver e os querem, a fim de conseguir sempre mais lucro, continuar matando a vida e o planeta.
O motor moraniano vai ao encontro das já existentes e, ao mesmo tempo, procura fomentar novas contracorrentes/contratendências aos motores científicos/técnicos/industriais/capitalistas que estruturam o atual modo de vida em nosso planeta. As contracorrentes estão em sinergia, “borbulhando nas entranhas da nossa sociedade, nas forças de regeneração política e social que estão em estado latente” (Idem, 2003b, p. 174), são elas:

  • a contracorrente ecológica que, com o crescimento das degradações e o surgimento de catástrofes técnicas/industriais, só tende a aumentar;
  • a contracorrente qualitativa que, em reação à invasão do quantitativo e da uniformização generalizada, se apega à qualidade em todos os campos, a começar pela qualidade de vida;
  • a contracorrente de resistência à vida prosaica puramente utilitária, que se manifesta pela busca da vida poética, dedicada ao amor, à admiração, à paixão, à festa;
  • a contracorrente de resistência à primazia do consumo padronizado, que se manifesta de duas maneiras opostas: uma pela busca da intensidade vivida (“consumismo”); a outra pela busca da frugalidade e da temperança;
  • a contracorrente, ainda tímida, de emancipação em relação à tirania onipresente do dinheiro, que se busca contrabalançar por relações humanas e solidárias, fazendo retroceder o reino do lucro;
  • a contracorrente, também tímida, que, em reação ao desencadeamento da violência, nutre éticas de pacificação das almas e das mentes. (Idem, 2000, p. 72-3)
Os socialistas, que também formam uma contracorrente ao atual sistema opressor, são chamados a participarem, através de suas reflexões e lutas, deste levante que se inicia.
Essas contracorrentes, em geral, ainda, são incipientes e se encontram dispersas, atuando em problemas localizados ou focados. A Política de Civilização não pretende sistematizar, padronizar sua ação ou reduzir suas singularidades, dizer o que ela deve ou não fazer, mas torná-la sistêmica, ou seja, religá-las ao todo, mediados pelos imperativos (solidariedade, convivência, moralidade e revitalidade), pois os problemas são globais, logo exigem respostas globais, uma consciência planetária.

Mais importante que todos os planos e projectos serão os processos diversos que formam a síntese de uma força colectiva que contém os fins, as esperanças e os desejos do conjunto dos indivíduos concernidos e que vão no sentido da sua sinergia (Idem, 1997, p. 148).

Não há um modelo único a ser seguido, mas vários que se interlaçam inter-dependentes-independentes a fim de criar uma consciência planetária. Para tal é preciso que estas experiências e lutas se interajam paulatinamente, um grupo deve se descobrir no outro, perceber que as reivindicações de diferentes grupos se assemelham às suas e que elas ganharão maior visibilidade e consistência quando as outras lutas também ganharem.

6.2. A aposta

A Politica de Civilização, diante da morte, cada vez mais iminente, da especie humana e da vida no planeta, faz uma grande UTOPIA: é possível construir um mundo melhor, através da regeneração do ser humano que regenerará a sociedade e ao se regenerar, regenera o ser humano, em um ciclo virtuoso, de ação e retroação.
O ser humano ao agir, visando a regeneração, mediado pela aposta e não pela certeza, elimina o risco de cair em uma falsa certeza. “Foi a falsa certeza que sempre cegou os generais, os políticos, os empresários, e os levou ao desastre” (MORIN, 2003a, p. 62). E ademais, as grandes certezas que impulsionaram a modernidade: a ciência e a economia foram postas a prova com as bombas de Hiroxima e Nagasaki e com a falência do capitalismo e fim do socialismo-real. O mesmo, pode se dizer com a morte do Deus-Moral, anunciada por Nietzsche (2001) e seu desdobramento no fim da metafísica, por Heidegger (1972).
A Política de Civilização ao ter como certeza a incerteza, não está propondo a inação, mas, alertando que qualquer ação pode ou não corresponder ao seu objetivo inicial.

Para compreender o problema dos efeitos de toda ação, inclusive a moral, precisamos nos referir à ecologia da ação.
A ecologia da ação indica-nos que toda ação escapa, cada vez mais, à vontade de seu autor na medida em que entra no jogo das inter-retro-ações do meio onde intervém. Assim a ação corre o risco não só de fracassar, mas também de sofrer desvio ou distorção de sentido. (MORIN, 2007, p. 41).

Se não há certeza, as nossas ações em prol da regeneração podem falhar. Mas, também, o próprio capitalismo pode cair por terra, não há nada que segure sua sobrevivência, além do esforço frenético dos capitalistas de mante-lo em pé. Uma parte dos socialistas que agiu com a certeza da grande promessa do socialismo, ao acontecer o ato simbólico do fim deste sistema: a derrubada do Murro de Berlim, em 1989, muitos destes socialistas perderam sua esperança de transformação. A Política de Civilização alerta para a este risco, antes de iniciar a ação. E propõe a estrategia ao invés de programa1.

A estratégia opõe-se ao programa, ainda que possa comportar elementos programados. O programa é a determinação a priori de uma seqüência de ações tendo em vista um objetivo. O programa é eficaz, em condições externas estáveis, que possam ser determinadas com segurança. Mas as menores perturbações nessas condições desregulam a execução do programa e o obrigam a parar. A estratégia, como o programa, é estabelecida tendo em vista um objetivo; vai determinar os desenvolvimentos da ação e escolher um deles em função do que ela conhece sobre um ambiente incerto. A estratégia procura incessantemente reunir as informações colhidas e os acasos encontrados durante o percurso. (Idem, 2003a, p. 62).

A estratégia conduz à Ética Complexa que se fundamenta em seus imperativos (solidariedade, convivência, moralidade e revitalidade), tendo por fim: a democracia. E a aposta nos conduz a fé ética. A fé ética é o amor: amor à vida, à humanidade, ao seres vivos deste planeta, este amor é o que forma a consciência da Terra-Pátria e nos leva a lutar contra tudo o que gera o desamor, a morte.

7. Mas você não morre, você é duro, José!

A esperança é a última que morre, segundo ditado popular. Enquanto, houver vida há esperança e mais desejo de vida, de uma vida digna que vai de encontro às forças de morte existentes no mundo. É a eterna guerra entre Eros e Tânatos. É como se o mundo inteiro (natureza, seres vivos) gemesse e gritasse contra seus algozes, e procurasse incansavelmente a regeneração. Infelizmente, muitos de nós professores e professoras nos distanciamos deste movimento em prol da vida que está acontecendo. Nossa reflexão se torna alheia a vida e nos fechamos em nossas convicções. A culpa disso não tanto nossa, pois os sistemas de pensamento do passado foram muito bem estruturados, por pessoas muito mais capacitadas que a maioria de nós. Mas estas conjecturas que foram elaboradas para darem respostas, no passado, falharam ao serem tidas como plenamente verdade e os intelectuais não conseguiram promover novas.
O povo por sua vez não pode ficar esperando que elaboremos novas pautas para eles seguirem, como quiseram muitos intelectuais. O povo tem uma necessidade imediata de sobrevivência, assim, ele se organizou, à sua maneira, para exigir seus direitos e mudanças no status quo. Nunca houve tantas pessoas engajadas em movimentos sociais, ONGs, partidos políticos, assim: Os índios manifestam a preocupação com a Mãe Gaia, o resgate de sua cultura e de suas terras; os sem-terra lutam pela reforma agrária; as mulheres realizam suas lutas feministas; os negros nos mostram que há uma única espécie humana; os homossexuais falam da liberdade para amar e ser feliz; grupos religiosos enquanto oram, afirmam que a religião não é “o ópio do povo”, mas é intrínseca à natureza humana; ambientalistas nos assustam corretamente sobre a ação humana e sua influência no aquecimento global e uma escassez, em breve, de alimentos devido ao consumo predatório do meio ambiente, maior que sua capacidade de regeneração; socialistas revelam as artimanhas dos capitalistas em sugar a mais-valia e acumular o capital; economistas nos mostram uma nova forma de economia, a economia solidaria.
A nova utopia ou as novas utopias estão ai, nas contracorrentes existentes. Mas, com uma diferença de outrora. As utopias anteriores foram elaboradas e efetivadas de cima para baixo e elas tinham uma dimensão de totalidade, ou seja, visavam todos os aspectos da sociedade. Enquanto, as novas utopias foram elaboradas no chão da vida, a partir de ações específicas de grupos, procurando resolver problemas concretos sem uma dimensão de totalidade. Assim, nós professores somos chamados a uma nova missão. Outrora, nossa função diante das utopias existentes era de levá-las ao povo; hoje nossa missão é recebê-las do povo, muitas vezes de forma não muito clara, e junto de nossos dissidentes, construirmos de forma sistemática e articulada, dentro da metodologia cientifica de cada disciplina formas de torná-las cada vez mais clara, concreta e totalizante.

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FUKUYAMA, Francis. O fim da História e o último homem. Tradução: Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

LOCKE, John. Dois Tratados do Governo Civil. Tradução: Miguel Morgado. Lisboa: Edições 70, 2006.

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_____________. Ética, Cultura e Educação. Organizadores: Alfredo Pena-Vega, Cleide R. S. De Almeida, Izabel Petraglia. 2ª edição. São Paulo: Cortez, 2003b.

_____________. Introdução ao pensamento complexo. Tradução: Eliane Lisboa. Porto Alegre: Sulina, 2006.

_____________. O Método 6: Ética. Tradução: Juremir Machado da Silva. 3ª edição. Porto Alegre: Sulina, 2007.

_____________. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Tradução: Catarina Eleonora F. da Silva, Jeanne Sawaya. 2ª. Edição. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000.

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MORUS, Tomás. A Utopia. Coleção: L&PM Pocket. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 1997

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