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segunda-feira, 28 de março de 2011

Referencial Teórico – O que é?

Wilson Horvath


(...) os referenciais teórico-metodológicos, ou seja, os instrumentos lógico-categoriais nos quais se apoia para conduzir o trabalho investigativo e o raciocínio. Trata-se de esclarecer as várias categorias que serão utilizadas para dar conta dos fenômenos a serem abordados e explicados. Muitas vezes essas categorias integram algum paradigma teórico específico, de modo explícito. Outras vezes, trata-se de definir bem as categorias explicativas de que se precisa para analisar os fenômenos que são objeto de pesquisa (SEVERINO, 2007, p. 131).

Em nossa vida cotidiana, nos deparamos com uma infinidade de fenômenos, e emitimos julgamentos a respeito deles, que podemos tornar públicos ou guardá-los para nós mesmos. Para a maioria dos acontecimentos, nós não damos uma importância significativa, pois eles estão em acordo com nossos referenciais; outros nos chamam muita atenção, pois de alguma forma, eles fogem daquilo que concebemos como “normalidade”. Mas, sempre emitimos julgamento.
Por exemplo: Todos os dias, ao sairmos de casa para trabalharmos, nós trancamos a porta, certo? E seguimos para nossas obrigações. Mas, se um dia, ao virarmos a chave, a fechadura não fechar, provavelmente, ficaremos desesperados e teremos que chamar o chaveiro para arrumar a fechadura. Isso se dá devido ao nosso referencial de “porta fechada”. Nós acreditamos que porta fechada significa: trancada por chave.
Esse referencial teórico, assim como qualquer outro, é construído historicamente: lembremo-nos do tempo de nossos avós, melhor de nossos bisavós. Eles, ao saírem de casa, apenas encostavam a porta e, no máximo, usavam a taramela. E para eles (devido ao referencial deles) a porta estava fechada.
Da mesma forma, nós emitimos julgamentos em todos os nossos campos de atuação. Nós, a partir de nossos referenciais, julgamos pessoas, instituições, programas, etc.
Imaginemos, por exemplo, aula de literatura, dada ao ar livre, em que o professor e alunos declamam poesias; discutem os conteúdos defrontando com o local onde estão.
Classificar esta aula como boa ou ruim dependerá do referencial de quem a irá julgar relativo ao que é uma boa ou uma má aula. Desta forma, o mesmo professor e a mesma aula podem ganhar elogios ou podem receber uma apreciação negativa.
Imaginemos, agora, que você acorde com os seguintes sintomas: calafrios e febre, dor de garganta, dores musculares, dores de cabeça, tosse, fadiga e mal estar. Então, você vai ao médico, ele faz algumas perguntas e exames, e diz que você está com gripe, sugere que você tome alguns remédios e faça repouso.
O que possibilitou ao médico tal diagnóstico? O seu referencial teórico de gripe, ou seja, ele estudou o que é gripe na faculdade e quais seus sintomas; com base nesses conhecimentos (referencial teórico) ele analisa seu paciente (seu objeto de estudo) a partir desse referencial, percebe que seus sintomas se encaixam naquele referencial, e, então, emite seu julgamento. Se os sintomas não corresponderem ao referencial de gripe, o médico deverá fazer mais pesquisa e procurar outros referenciais para dar conta da análise do caso e do tratamento cabível.

O Referencial Teórico e a Pesquisa Científica

Segundo Gunnar Myrdal: “A ciência nada mais é que o senso comum refinado e disciplinado” (apud ALVES, 1981, p. 07). O pensamento científico segue as mesmas lógicas do senso comum, só que de maneira diferente, mais refinado e disciplinado.
Nós, em nosso cotidiano, no senso comum, ao julgarmos qualquer fenômeno, o fazemos a partir de uma infinidade de referenciais teóricos, que os adquirimos em nossa família, com amigos, na escola, na faculdade, em leituras, etc. Na maioria das vezes, nós não conseguimos separar nem saber de onde vem cada referencial, pois eles aparecem sobrepostos e imbricados.
O pensamento científico exige que refinemos o nosso referencial. Refinar nada mais é do que: separar, filtrar, tornar sem mistura. Então, para desenvolvermos uma pesquisa é preciso que apresentemos de forma clara e precisa o referencial teórico, o qual usaremos para analisar, criticar, julgar o objeto de pesquisa.
E tornar o referencial disciplinado é apresentá-lo de forma lógica e coerente. É descrever o referencial explicar o que ele é, a fim de que outras pessoas (e, principalmente, nós mesmos) possam saber quais foram as razões que percorremos para chegarmos àquela conclusão.
Para que realizemos uma boa pesquisa, nós temos que ter apenas UM REFERENCIAL TEÓRICO, caso não, a pesquisa não terá caráter científico e será uma pesquisa de senso comum. Isso é refinar o referencial, ou seja, é somente aquele referencial sem a mistura de outros referenciais.
O referencial teórico não é criado por nós, nós usamos UM único conceito desenvolvido por UM autor, um grande pensador. Ficou claro? Vamos falar de outra maneira, para ficar bem esclarecido. Nós tomamos de um determinado autor apenas um conceito de toda a gama de conceitos desenvolvidos por ele, e o usamos como referencial.
Nada impede que usemos comentaristas desse grande autor para melhor clarear o nosso referencial, mas o referencial não será esses comentaristas, e sim, o conceito que os comentaristas estão comentando. A isso, se dá o nome de: “Estado da Arte”.
Vejamos a celebre frase de Isaac Newton: “Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes”.
O que é estar sobre os ombros dos gigantes? No nosso caso, é usar os referencias de outrem, a fim de lermos outros objetos que eles não leram; isso faz com que a ciência se desenvolva e avance.

Articulação do Referencial na Pesquisa

O referencial teórico é a peça chave de uma pesquisa científica, é ele que possibilitará a nós dizer algo sobre o objeto de estudo, bem como, emitir juízos de valor sobre o objeto. Segundo Severino, ele é o conjunto de “instrumentos lógico-categoriais nos quais se apoia para conduzir o trabalho investigativo e o raciocínio”. Sua função na pesquisa é: “dar conta dos fenômenos a serem abordados e explicados”.
Toda a nossa pesquisa se desenvolverá a partir do problema posto com a ajuda do referencial teórico adotado por nós. É ele que definirá a metodologia da pesquisa e a forma como ela se estruturará. Por isto, nós precisamos definir bem o nosso referencial a fim de construirmos uma boa pesquisa, sem sofrimento e sem precisar ir além do necessário que a pesquisa exige.

Exemplo

O objeto de estudo é educação artística. Então vamos delimitá-lo.
A pesquisa será teórica ou de campo?
De campo.
Onde?
Em ONGs.
Qual?
Educarte (o exemplo é fictício).
Onde ela está?
No Bairro do Ipiranga.
Em quantas sedes desta ONG se realizará a pesquisa?
Uma
Quando?
No segundo semestre de 2011.
O que investigar? Professores? Alunos? Etc.?
Os alunos.
Quem são estes alunos?
Jovens de 14 a 18 anos.
O que dos alunos em relação às aulas?
???

Aqui está o momento crucial do projeto de pesquisa. Então, vamos nos ater a este ponto. O que se quer conhecer saber desses alunos em relação às aulas?
Supondo que nós queremos saber se as aulas de arte nesta ONGs contribuem para que os alunos sejam pessoas mais felizes.
Nada mais justo, não é? Afinal, o mínimo que o professor pode esperar é que suas aulas possam contribuir de alguma forma para a felicidade de seus alunos, ainda mais neste mundo, onde as pessoas parecem ser tão infelizes, não é?
Aqui, entra o referencial.
Felicidade em qual autor?

Conceito de Felicidade, desenvolvido por Erasmo de Rotterdam, na obra Elogio à Loucura.

Segundo Erasmo de Rotterdam é: “a felicidade consiste, sobretudo, em se querer ser o que se é. Ora, só o divino amor próprio pode conceder tamanho bem. Em virtude do amor próprio, cada qual está contente com seu aspecto, com seu talento, com sua família, com seu emprego, com sua profissão, com seu país”. (2002, p. 16).
Erasmo é um renascentista cristão-católico. Ele pretende resgatar o ardor do cristianismo primitivo e conciliá-lo com as ideias renascentistas. Sua crítica à sociedade se deu, pois segundo a visão do filósofo, esta pregava e vivia uma moral de aparências, em que o ritual era mais importante que o viver; a sociedade vivia em uma busca desesperada por dinheiro e fortunas. Segundo o filósofo, aqueles que não vivem em busca de dinheiro de acordo com a moral vigente são considerados por aquela sociedade como loucos. Ele denomina a moral vigente em sua época de moral aparente, ou de moral das aparências. Em face dessa situação, ele faz uma apologia à loucura, daí o nome de sua obra. Ele elogia a loucura daqueles que se rebelam contra este tipo de moral falsa.

Aplicando o Referencial

Neste exemplo, nós podemos perceber que as primeiras etapas da delimitação se deram aleatoriamente. Essas delimitações ocorreram devido a um interesse do pesquisador, sua afinidade com o objeto. Mas, a última delimitação ocorreu devido ao referencial.
O referencial a partir de agora servirá como uma lupa, uma lente de aumento, que nos ajudará a entender aquele ponto específico do objeto de pesquisa.
O nosso objeto de pesquisa é, portanto: Felicidade nas aulas de arte, na ONG Educarte.

O que a pesquisa pretende descobrir?
Se os alunos são pessoas mais felizes ou não a partir daquelas aulas.
Problematização:
Os alunos que frequentam os cursos de arte, na ONG Educarte, tornam-se, com a ajuda desses cursos, pessoas mais felizes? Eles conseguem a partir das aulas, viverem aquilo que eles realmente são? Eles desenvolvem seus talentos? Eles deixam de ter preocupações exageradas com aquilo que a sociedade impõe e com a moral aparente?
Vejam bem, essas questões são oriundas do Referencial Teórico, e são elas que nortearam a pesquisa.
A metodologia que usaremos tem que ser para responder essas questões. Por exemplo, nós podemos usar entrevistas, questionários, gravações de aulas. Tudo isso para que tenhamos elementos para julgar cientificamente e não ficar na “achologia”.

Observação: Se nosso referencial teórico fossem idéias de outro autor, por exemplo: Felicidade para Aristóteles, nossa pesquisa tomaria outro rumo. As perguntas a serem respondidas, seriam outras, bem como as análises e conclusões do trabalho seriam, talvez, diferentes.

Referências Bibliográficas

ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência: Introdução ao jogo e suas regras. São Paulo: Brasiliense, 1981.
ERASMO DE ROTTERDAN. Elogio à Loucura. E-books, 2002.
SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do Trabalho Científico. 23ª ed. São Paulo: Cortez, 2007.

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7 comentários:

  1. Parabéns pelo caráter instrutivo e extremamente didático de suas colocações sobre pesquisa. Sou mestranda e estou no início da delimitação do meu objeto. E nessa fase sobram dúvidas! Adorei sua forma de nos colocar a pensar nessa delimitação do estudo! Obrigada pela ajuda!

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    1. Parabens pelas colocações. Também sou mestranda e estou enquadrando o meu objeto de pesquisa a um referencial teórico. Nos ajudou a entender melhor essa questao.

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  2. Gostei muito das colocações!!! Muito bom.

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  3. Muito bom professor! Bem mais fácil de entender do que nas apostilas da Faculdade!
    Senti falta de um índice em seu blog! Com certeza deve ter muitos posts interessantes que não estão listados.
    Desculpa, é que gostei de sua exposição do assunto e achei uma pena não haver esta oferta.

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  4. Aprendi bastante com a forma como detalhaste a questão, mas quero saber uma coisa. Quantos referenciais podem existir num tema. por exemplo, vou fazer uma pesquisa numa escola onde os problemas prendem-se com as metodologias reformistas, na qual gera descontentamento generalizado entre os professores,alunos e encarregados de educação.
    Minha pergunta é: quem é o referencial teórico nesse caso( é uma interrogação)

    Edgar

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