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terça-feira, 20 de novembro de 2012

A paixão filosófica

Wilson Horvath

Quem nunca se apaixonou? E não passou horas a fio pensando na pessoa amada? Ou ficou ouvindo-a falar o que quer que fosse e achou aquilo o mais interessante dos assuntos? Ou se derreteu em seus braços, recebendo o seu beijo como se ele equivalesse ao néctar dos deuses? E infelizmente não chorou por não ser correspondido?

Quem nunca se apaixonou, não viveu de verdade! A paixão dá um sabor especial à vida, ela mexe conosco e nos transforma em uma nova pessoa, diferente de tudo aquilo o que éramos. O apaixonado vê o mundo de uma forma diferente, suas preocupações são outras, enquanto está sob o efeito da paixão, ele diminui o seu egoísmo, torna-se mais sensível, agradável e bom.
Platão (428 – 347 a.C.), filósofo grego, identifica o Ser do “amante da sabedoria” com o próprio amor Eros (ρως) – erótico. Vejamos este mito criado por ele a fim de ilustrar ambos.
"[...] Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, Recurso. Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza, e ficou na porta. Ora, Recurso, embriagado com o néctar - pois o vinho ainda não havia - penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando em sua falta de recurso engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor. Eis por que ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela. E por ser filho o Amor de Recurso e de Pobreza foi esta a condição em que ele ficou. Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista: e nem imortal é a sua natureza nem mortal, e no mesmo dia ora ele germina e vive, quando enriquece; ora morre e de novo ressuscita, graças à natureza do pai; e o que consegue sempre lhe escapa, de modo que nem empobrece o Amor nem enriquece, assim como também está no meio da sabedoria e da ignorância. Eis com efeito o que se dá. Nenhum deus filosofa ou deseja ser sábio – pois já é – , assim como se alguém mais é sábio, não filosofa. Nem também os ignorantes filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da ignorância, no pensar, quem não é um homem distinto e gentil, nem inteligente, que lhe basta assim. Não deseja portanto quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso (PLATÃO, 1991, p. 35; grifo nosso).

A explicação mitológica sobre o amor dada por Platão talvez seja a mais linda e próxima da complexidade que envolve o amor que conhecemos. Eros (amor) ama a beleza, sente atraído por ela, pois nasceu no natalício de Afrodite. Ele não tem a pessoa amada por causa da natureza de sua mãe (Pobreza) e sofre a sua falta. Porém ele não fica parado diante de sua falta, devido à natureza de seu pai (Recurso), ele está sempre tramando maneiras, artimanhas para conquistá-la. Ele se enriquece com o amor da beleza, mas no mesmo dia, se torna pobre novamente, pois essa o abandona novamente.
Um dos maiores problemas dos relacionamentos, se não o maior, talvez seja o fato de os amantes, com o passar do tempo, substituírem a paixão pelo sentimento de posse. Dessa forma, eles, ao invés de continuarem a tramar meios de conquistas, partem do princípio que o outro já é seu, e assim se relacionam até o dia em que perdem para sempre o amado, morando ou não sob o mesmo teto.
Platão, porém, nesse mito, não está falando apenas do amor (Eros), ele também está falando de um modelo de ser filósofo. As características que ele apresenta do amor rementem ao seu mestre, Sócrates (469 – 399 a.C.), considerado o patrono da Filosofia.
Sócrates, segundo os padrões gregos de beleza, era considerado feio, com traços indelicados, além disso, era velho, pobre, maltrapilho, andava descalço. E, ao contrário dos sofistas[1], que cobravam por seus ensinamentos, ele ensinava de graça nas praças públicas.
A figura de Sócrates, a sua aparência, chocava e trazia questionamentos aos gregos, e ao mesmo tempo cativava, despertava desejos e admiração. De acordo com Wolff:

Para um povo tão agarrado à beleza das formas, tão amante da harmonia plástica, que considerava um dom divino, signo de perfeição interior, Sócrates é uma contradição viva: é tão evidentemente feio quanto é inteligente, vivo, de sabedoria brilhante [...] Sua feiura é provocante, pois provoca reflexão: é feio pelo corpo, mas belo pela alma, parece feio, mas é belo [...] Sócrates encarna para os gregos a oposição entre o ser e o parecer, entre a alma e o corpo, oposições que se transformarão no fundamento de suas reflexões [...] (1982, p. 12; grifo nosso).

Sócrates era admirado e amado pelos jovens atenienses, em especial os seus discípulos. E o que despertava os desejos das pessoas de conhecer e estar junto dele era o fato de ele ser exatamente o oposto de tudo aquilo que era considerado belo pelos gregos.
Até hoje, é difícil entender o porquê deste fascínio, mas precisamos ter em mente que Sócrates é, para Platão, o modelo de filósofo, de amante da sabedoria. Logo, para compreendermos, precisamos partir do amor, pois Sócrates é apresentado como o próprio Amor.
O amor faz coisas que somente se explica pelo amor. Tomemos como exemplo a relação de uma mãe e o seus filhos. Nós vivermos em um mundo marcado pelo egoísmo, onde a maioria das pessoas somente enxerga o seu próprio umbigo. Porém, a mãe deixa de comprar roupas e outros adereços para ela a fim de ter dinheiro para deixar os seus filhos mais bonitos; entre comprar remédios para ela e para os filhos, a sua prole é medicada. A mãe sempre guarda a melhor parte do frango para os filhos!
Por que a mãe faz isso? Ela ama os seus filhos. Por que Sócrates não se preocupa com sua aparência nem com o dinheiro? Ele ama a sabedoria a cima de tudo e somente ela deve ser importante para o filósofo.
Nós, a partir da caricatura socrática, podemos adiantar alguns questionamentos que trataremos em outro momento. O que parece ser, realmente é? O que a maioria acredita ser belo e bom, em verdade é? A verdade está aos nossos olhos ou não? O dinheiro atrapalha a busca pelo conhecimento?
Esses temas e outros fazem parte do universo de preocupações da Filosofia. Sobre eles, o filósofo e a filósofa dedicarão o seu tempo, os seus esforços.
E para chegar às respostas, ainda de acordo com o mito de Platão, devemos fazer como Sócrates ou como o Amor-Eros. A verdade só se atinge com paixão, com desejo. Os mesmos sentimentos despertos na paixão de uma pessoa para outra, devem ser despertos na relação entre o filósofo ou a filósofa e o conhecimento.
O filósofo e a filósofa não possuem o conhecimento, pois esse pertence somente aos deuses; o dia em que alguém achar que possui a verdade, que conhece plenamente algo, ele rompe a relação de amante da sabedoria e, pretensamente, estará se equiparando aos deuses ou um ignorante, que não tem a consciência de sua falta de saber.

Referências Bibliográficas

Platão. O Banquete. In: Platão. 5ª ed. Tradução de José Cavalcanti de Souza et al. São Paulo: Abril Cultural, 1991 (Coleção Os Pensadores).
WOLFF, F. Sócrates – o sorriso da razão. São Paulo: Brasiliense, Coleção Encanto Radical, 1982.



[1] A palavra Sofista quer dizer Sábio. Esta corrente de pensamento foi desprestigiada por Platão e Aristóteles que afirmavam que os sofistas dedicavam a produzir falsos conhecimentos, a partir das aparências. Porém, os sofistas introduzem uma nova forma de reflexão em relação aos pré-socráticos, esses que dedicaram suas reflexões em busca da arché; os sofistas trouxeram a reflexão filosófica, do céu para a terra, ou seja, do princípio primeiro para o Ser Humano concreto.