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segunda-feira, 20 de maio de 2013

Morin Fala Sobre as Perspectivas Contemporâneas


NAPOLEÃO SABÓIA – Correspondente - Entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em 09/02/2003
        Apesar do que chama de ameaça do choque das barbáries - entre Ocidente e Oriente -, o pensador francês vê soluções para as crises do homem moderno, sobretudo na 'periferia'


PARIS - Um dos últimos "monstros sagrados" em vida, e todo aceso, da belle époque intelectual francesa - em que pontificaram Sartre, Camus, Foucault, Aron, Bourdieu -, Edgar Morin, aos 81 anos, continua cultivando múltiplas curiosidades, produzindo conhecimentos no campo das humanidades e pondo seu acervo de intuições e saberes a serviço das causas inovadoras.
A busca de um novo humanismo com padrões éticos e estéticos que o proteja ou o torne menos vulnerável ao rolo compressor da ciência "pura e dura", da tecnologia e da economia se inscreve nesse espectro de interesses do sociólogo e filósofo francês, que receberá, no correr do ano, o título de Doutor Honoris Causa de várias universidades brasileiras.
Com uma obra diversa e de referência, já traduzida em mais de cem países, Edgar Morin está enriquecendo-a agora, com o lançamento de novo livro sobre suas concepções no terreno da ética. Nesta entrevista da Estado, o pensador fala sobre as perspectivas do homem e da humanidade sob a ameaça do que chama, não de choque de civilizações, mas de barbáries.

Estado - Na sua secretária eletrônica o senhor registrou mensagem aos amigos alertando-os para a necessidade de se "apertar o cinto" neste novo ano, porque ele "será severo". O que o preocupa tanto?
Edgar Morin - O risco maior que se corre é o do choque de barbáries, chamado pudicamente de choque das civilizações. Temos frente a frente dois maniqueísmos – o dos Estados Unidos que pensam representar o império do bem e o dos terroristas do Al-Qaeda que, desgraçadamente, se consideram também a encarnação do reino do bem. Cada um vê no bem do outro o mal absoluto. Não desejo, porém, fazer uma simetria nisso. Apesar da tentação hegemonista e dos elementos negativos de sua política externa, acentuados pela presidência de Bush, os Estados Unidos têm de ser compreendidos no que eles oferecem ao mesmo tempo de pior e de melhor ao mundo.
Estado - Por exemplo?
Morin - Não podemos esquecer da época em que parte ponderável da intelligentsia mundial idealizava a União Soviética como o paraíso, o reino do bem e estigmatizava os Estados Unidos como o mal absoluto. Tiveram os idealistas do "futuro radioso" razão? Inútil acrescentar ao que todos já sabem sobre a tragédia provocada pelo comunismo. Mas, voltando ao momento atual, temo que o planeta se encaminhe progressivamente para um impasse generalizado. Como adolescente, vi a marcha - que poderia ter sido contida - do mundo para a 2.ª Guerra. E me pergunto agora se não estamos, embora em outro contexto histórico, no mesmo caminho 60 anos depois.
Estado - No que se baseia essa visão?
Morin - Vemos se multiplicarem os fenômenos negativos como os conflitos de caráter étnico e religioso. O processo de globalização em curso implicando abertura e entente entre os povos se defronta contraditoriamente com essa tendência para um fechamento com inexcedível agressividade. Daí a dificuldade para se introduzirem instâncias reguladoras da economia mundial, reclamadas em toda parte, inclusive por Wall Street. É paradoxal o fato de a globalização desenhar o quadro de uma sociedade-mundo, dar a esta uma infra-estrutura maravilhosa de comunicação, graças à internet, e não poder dotar tal arquitetura política de centros de decisões ou de autoridades com a legitimidade necessária para tratarem os problemas cruciais. Ao mesmo tempo, combinada com as crises econômicas periódicas, assistimos pelo mundo afora à decomposição do espírito cívico e à progressão da violência urbana. Esta, em Paris, Londres ou São Paulo, se nutre em grande parte da mesma causa - a exclusão social. Há outros fermentos desse quadro de pesadelo.
Estado - Quais?
Morin - A guerra provável no Oriente Médio. Sem dúvida, Saddam Hussein é um tirano horroroso, mas o que acontecerá depois no Iraque, à luz do que já se passa hoje no Afeganistão desintegrado, onde o novo poder controla apenas Cabul? Nem mesmo a Al-Qaeda foi liquidada. Há o trauma do mundo muçulmano, mais de 1 bilhão de pessoas, pela política de dois pesos e duas medidas com que o Ocidente trata a questão israel-palestina. Enquanto não se instilar um mínimo de eqüidade nesse dossiê explosivo, um acordo nas condições já conhecidas, ou seja, o retorno às fronteiras de 1967 com o desmantelamento das colônias judaicas e a divisão de Jerusalém, o câncer que corrói o Oriente Médio tende a afetar o resto do mundo.
Estado - A esse ponto?
Morin - Sim, porque o Oriente Médio é uma zona sísmica em matéria geopolítica, ela protagoniza o encontro e o choque de três religiões, o confronto da laicidade com as formas sacramentais de comportamento, tudo isso marcado pela impaciência dos jovens com a pobreza e pela resignação dos mais velhos ao status quo. O câncer tende a se planetarizar com o cálculo perverso feito pela Al-Qaeda encampando uma causa justa -a dos palestinos, pela qual Bin Laden nunca se interessou - para aumentar a audiência de sua causa horrível.
Estado - O que fazer então?
Morin - Há de se pensar naquilo que chamo de uma nova política de civilização. Uma política que reconheça não apenas os valores das sociedades ocidentais, tais como as liberdades, os direitos do homem e da mulher, mas também as virtudes das outras sociedades ditas periféricas nas quais se inclui o mundo muçulmano. O processo renovador começa sempre por pequenas ilhas de experimentos, de desvios criativos, que se desenvolvem em tendências e se transformam, afinal, em pólos catalisadores de uma política pela renovação da ordem internacional. É por isso que acredito em Porto Alegre como laboratório de idéias, de proposições alternativas, suscetíveis de fecundar formas de democracia local, de democracia econômica, de democracia social. Ainda nessa perspectiva, é encorajador o fato de que a China e o Vietnã se abrem ao mercado mundial, aderem sob certas condições à prática do capitalismo. A hora é, portanto, para as proposições, que não excluem os movimentos de protesto, a fim de que o mundo redescubra outra forma de futuro. O progresso não é mais uma coisa certa, uma promessa na qual se deva confiar como no passado. Para restaurarmos a esperança, precisamos mostrar que existem outras vias conduzindo a uma política de civilização, capaz de conciliar as exigências econômicas do modelo liberal com as demandas sociais próprias da democracia.
Estado - Ao preconizar uma nova política de civilização, o senhor insiste na idéia da "refundação ético-econômica". O que é isso?
Morin - A economia sempre esteve sob o controle da ética por intermédio da política, que elabora e introduz as leis que informam os processos e penas judiciais contra os autores de atos de corrupção, de falcatruas financeiras e outros crimes ditos de colarinho-branco. Mas houve nos últimos anos um retrocesso no campo ético, como o demonstram escândalos envolvendo empresas gigantescas tipo Enron, na esteira da abolição de uma série de normas reguladoras das atividades econômicas e financeiras. Felizmente, diante do avanço dos métodos ilegais e imorais em certos setores de atividade, uma reação em favor de exigências éticas na condução da economia está sendo desenvolvida nos Estados Unidos e na Europa por diversos movimentos associativos, incluindo produtores rurais, empresários, operadores de capitais.
Estado - O senhor é um dos benévolos propagandistas dos investimentos éticos...
Morin - Os fundos de investimentos éticos, em expansão no mundo desenvolvido e já totalizando alguns bilhões de dólares, ilustram bem essa preocupação com o que eu chamaria de refundação ético-econômica, que abrange também exigências de ordem ambiental, considerado a extensão dos danos causados pela poluição. Foi dentro desse espírito que se iniciou entre diversos países europeus, latino-americanos e africanos outro movimento - o do comércio eqüitativo. Vários de meus amigos e eu próprio só consumimos, hoje, o café da América Latina vendido pela sistema de distribuição eqüitativa. Livre da ganância desenfreada dos intermediários, ele assegura um preço correto para os pequenos produtores e também para os consumidores. O raio de ação do comércio eqüitativo precisa ser agora ampliado com a criação de novos lobbies dos consumidores associados aos movimentos da cidadania. Só assim, mediante pressões sobre os poderes públicos e os atores responsáveis do mercado, é que se conseguirá a prevalência por inteiro da moral nas atividades produtivas. Enfim, é preciso restaurar o primado da política sobre a economia.
Estado - No mundo da complexidade e da informação, exigindo presteza no trato das múltiplas questões da sociedade, que devem fazer os homens políticos para estar à altura?
Morin - Os partidos políticos em geral estão esclerosados em toda a parte. Seus membros se ocupam basicamente das coisas simples do dia-a-dia, porque se desorientam quando se defrontam com a complexidade. Na verdade, são poucos os que estudam os problemas da sociedade complexa em que vivemos comportando outras formas de risco, de incerteza e exigindo o aprendizado da história e da compreensão, indispensável à paz mundial. Também não houve até agora nenhuma reforma do ensino para permitir abordagem metodológica da questão e de suas incidências sobre a condição humana.
Estado - Que rumo o senhor apontaria aos políticos?
Morin - Eu vejo a coisa em duas dimensões: primeiro, temos de convir que a política necessita urgentemente ser fecundada por novas idéias, idéias que surgem muitas vezes em centros ou clubes de reflexão das periferias, de laboratórios de ciências humanas itinerantes, como o de Porto Alegre. Paralelamente, coloca-se o problema da reeducação e/ou da autoeducação dos políticos. Do contrário, eles acabarão dominados de vez pelos técnicos ou tecnocratas, que privilegiam o enfoque unidisciplinar, fechado, fundado nos modelos matemáticos que são redutores. Ora, nem todos os elementos essenciais da condição humana podem ser quantificados. A rigor, os problemas da sociedade complexa devem ser tratados no plano da qualidade, a começar pela qualidade da vida - e tal exigência passa imperativamente pelo enfoque plurisdiciplinar das questões.
Estado - Então, qual seria a conclusão de seu diagnóstico?
Morin - Em suma, pelo meu diagnóstico, três dos quatro motores - a ciência, a técnica, a economia - que impulsionam a nave espacial Terra estão desregulados por causa da avaria do quarto e principal motor - a política. Daí o fato de estarmos às voltas com as crises das técnicas industriais poluentes, das práticas escusas de um capitalismo desabrido, às quais se juntam os riscos de manipulações genéticas dementes, etc. E não serão os técnicos, os economistas e os cientistas que irão fixar normas ético-políticas e conjurar o caos. Caos a que seremos levados se os homens políticos continuarem se omitindo por ignorância e por carência de civismo.
Estado - Como vê a evolução do Brasil e da América Latina neste cenário mundial de incertezas?
Morin - Se o mundo se encaminhar para o confronto de barbáries, a América Latina não ficará a salvo das conseqüências disso. Nos momentos de crise, os povos costumam se voltar para si e para seus vizinhos e tratar de se amparar reciprocamente. Tudo o que espero, neste quadro de ameaças e incertezas - e torçamos para que as previsões mais sombrias não se concretizem -, é que os latino-americanos, rompendo as barreiras geográficas, se conheçam melhor, colaborem mais entre si na construção do continente que lhes pertence.
Imagino o advento de uma federação continental, como a que se esboça na Europa, mas nunca nos termos da concebida por Bolívar. Bolívar só pensou na união e na liberdade dos colonos brancos, seu projeto não incorporava o mundo indígena, pré-colombiano. Pois o Brasil tem papel decisivo a desempenhar nessa construção comum, visto a força civilizadora fenomenal engendrada pela sua herança cultural mestiça, caldeando os valores ameríndios com os da Europa, África e Ásia.